sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Dia 14: Fushimi Inari, castelo Nijo e festivais

Hoje deixamos a parte da tarde e noite do dia mais livre, já que havia dois festivais que queríamos ver. Então, saímos cedo de casa para aproveitar mais o dia. Nosso destino era o templo Fushimi Inari, famoso por ter 1,000 portões torii. O templo fica mais ao sul de Kyoto e a estação de trem fica praticamente na porta do templo.

Entrada do templo Fushimi Inari

Na entrada destes templos há sempre muitos detalhes, além dos guardiões, este templo contava com um par de cachorros também guardando a entrada. 

Uma das estátuas de cachorro na entrada do templo

Sempre também há lanternas, sejam aquelas de pedra que se erigem a partir do chão ou as penduradas. Outra coisa que vemos com frequência são os detalhes, sejam em madeira ou em metal, normalmente dourado.

Uma lanterna pendurada

E mais umas lanterna de papel, com detalhe do cachorro ao fundo

A entrada do templo é bonita, e logo à direita ficam os primeiros toriis. A gente foi andando e teve a impressão de que não eram muitos. Impressão completamente errada. O templo fica numa montanha e há muitos, mas muitos toriis, formando caminhos para todos os lados. 


Caminho infindável de toriis


Algo que é bastante curioso é que estes toriis são em geral patrocinados por empresas, eles são ao mesmo tempo um pedido e uma oferenda. A gente tende a achar que o que está escrito seja algo mais teológico ou dizeres de sabedoria, mas são na verdade marcas de empresas. Outra curiosidade é que como estes portões são de madeira, eles precisam ser trocados a cada dez anos.


Descobrimos que havia um caminho para o topo da montanha e decidimos chegar lá. Vale notar que estes caminhos de toriis são realmente no meio da floresta, então vemos a integração entre religião e natureza, algo que já havíamos notado e que realmente me veio a mente de maneira clara na nossa visita a Shirakawa Go.


O dia estava nublado e a chuva vinha e ia, mas como eram muitos toriis, ficamos protegidos por eles, a chuva não era tanta a ponto de penetrar ou de nos molhar seriamente. Chegamos ao topo subindo por mais de uma hora, não havia nenhuma vista para a cidade neste ponto. Descemos em pouco menos de uma hora e fomos para o Palácio Imperial.


O corredor de toriis parecia não ter fim

Há um desfile chamado de Jidai Matsuri (em tradução, jidai significa era, matsuri significa festival, ou seja, festival das eras) no qual pessoas desfilam utilizando roupa das diversas eras do Japão. É interessante que a história do Japão seja dividida em eras da mesma forma que dividimos a história ocidental. Aqui me refiro às divisões ainda do estudo de história na escola. Ficamos assistindo ao início do desfile na saída do portão pelo qual vinham as pessoas.


Além de pessoas caracterizadas, também vimos animais

Foi bem legal ver as pessoas vestidas com roupas de época, há entre as eras diferenças. Notamos que mesmo com a mudança de época, alguns elementos de identidade visual são carregados uma época à outra, criando uma referência de elementos comuns e nos ajudando a identificar cada indumentária como sendo japonesa. Chama a atenção que tudo seja tão silencioso, até enfadonho, sobretudo para a gente que tem como referência procissões ou eventos culturais sempre acompanhados de música ou cânticos.


Detalhe da roupa de um dos participantes do desfile

O desfile seguiu pelas ruas de Kyoto, o que causava um contraste estranho, pessoas vestidas com roupas bem antigas desfilando em ruas com prédios e outros elementos modernos. Aliás, Kyoto foi salva a tempo, porque houve um boom de desenvolvimento imobiliário, mas alguém se tocou que uma cidade que fora capital do país por quase 1000 anos, deveria ser preservada, de preferência, sem perder nada de seu charme construído ao longo de séculos.

O contraste se torne evidente 

Isso ocorreu ao longo do caminho

Depois de ficarmos uns trinta minutos por lá fomos procurar um lugar para comer. Achamos um lugar de ramen que era promissor. Começando pelo fato de o pedido ser feito através de uma máquina, que emite um ticket físico, posteriormente ele é recolhido por um garçom. Escolhemos o ramen com caldo de missô e lagosta. Essa base foi uma das mais diferentes, e melhores, que já comemos aqui. O prato estava realmente incrível.

A máquina ...


... o ramen e nós!


Nossa visita seguiu pela mesma região, andamos até alcançar o Castelo Nijo, construído para ser a residência do shogun em Kyoto. O castelo é um complexo fortificado com dois palácios, sendo que somente um é original, o Ninomaru, que visitamos. A disposição dos palácios é um ao redor do outro com dois fossos de proteção, sendo que um destes fossos se localiza entre o Palácio Ninomaru e o Honmaru, o palácio mais interior. O outro fosso fica ao redor de Ninomaru.


O fosso externo

O portão de entrada do Palácio Nijo


O grau de detalhes do interior de Ninomaru são incríveis. Os tetos são todos de madeira, cada sala tem pinturas decorativas evocando animais e paisagens de estações. Curiosamente os japoneses adotaram o simbolismo chinês e coreano de que o tigre é um animal poderoso. Então esse era um tema recorrente na decoração. (Não temos fotos do interior porque estas eram proibidas.)


A entrada interna do Palácio Nijo

Com relação às pinturas de tigres, entram algumas curiosidades. Primeiro que nenhum artista japonês tinha visto um tigre, então os desenhos eram sempre baseados em descrições ou em desenhos de outros artistas. Isso rende um monte de figuras bizarras que causam estranheza porque os desenhos parecem ter algo de errado na anatomia.


Detalhes em metal

A segunda curiosidade é que se achava que um a cada quatro filhos de tigre era um leopardo, e portanto, tinham manchas redondas. Isso também causa um certo tipo de estranheza. Fora estes detalhes, o uso de cores douradas e a paisagem de fundo tornam a decoração muito bonita.


Os ornamentos eram muito bonitos

E também as telhas compunham um belo arranjo


Este castelo serviu de residência do shogun, e portanto, a construção dos aposentos foi feita para mostrar o poder dele em relação aos daymios (senhores feudais), tudo apontava para a importância do shogun, desde os motivos escolhidos para ornamentar cada lugar do palácio até a altura do teto e elevação do piso dentro de algumas salas. O shogun sempre ocupava as posições mais altas.


Detalhes no portão de entrada


Depois de fazer a visita e andar pelos jardins do palácio fomos para o segundo festival, chamado de Festival do Fogo de Kurama, que tem lugar no santuário Yuki e pelas ruas da cidadezinha de Kurama. O festival é considerado um rito de passagem para os jovens, vimos desde criança a adultos participando. Os partícipes carregam tochas que variavam de tamanho e peso. As tochas que os adultos carregavam eram enormes e segundo pesquisei chegavam a pesar 80 quilos. 


Uma tocha exibida em frente a uma casa na vila de Kurama


Já na estação de trem notamos que o festival seria lotado, havia fila para pegar o trem, aliás, a última perna do trem, porque pegamos três trens para chegar. Assim que desembarcamos na vila, que fica por volta de quinze quilômetros ao norte de Kyoto, já sentimos o cheiro de fumaça. Eu pensei que não estávamos tão perto, mas pouco depois de sair da estação já notamos fogueiras.


A estação de trem estava lotada

Logo no início já vimos que seria confuso


Saindo da estação havia policiais controlando o fluxo de pessoas. Notamos do outro lado, que para pegar o trem de volta, um curral com cordas armado para enfileirar os passageiros nos aguardava. Os policiais estavam por toda a vila, na estação de trem, logo na saída da estação, pela enorme rua, perto do caminho de retorno, em todos os lados.


A procissão ocorria em ondas

Aqui escutamos o que eles falavam


Como a vila é bem pequena, isso era essencial para controlar a multidão. Ao longo de uma rua principal, várias casas tinham fogueiras armadas em um equipamento próprio para isso, e vimos diversas tochas repousadas. Ocasionalmente uma era acesa e escutávamos gritos, os participantes acendiam a tocha e a repousavam no ombro.


Eles então caminhavam para cima e para baixo com a tocha, repetindo os gritos. Por toda a rua era isso que se fazia. Vale notar que eles se vestiam com roupas tradicionais, incluindo uma “fralda” que lembrava aquela usada pelos lutadores de sumô. Segundo lemos, o festival era basicamente conduzido por homens, mas com a diminuição da população e com os tempos atuais, meninas também participavam.


Algumas tochas ao longo do caminho


Não chegamos a ver a chegada ao templo porque isso aconteceria bem mais tarde. Os policiais sempre nos pediam para que andássemos e não parássemos, mantendo o lado esquerdo da rua. Eu fiquei muito impressionado como eles conseguiam lidar com o volume de pessoas que estavam no festival. Demos a volta na cidade, fomos obrigado a seguir bastante até o fim e depois voltar, tudo isso porque a quantidade de pessoas é muito maior do que o trem é capaz de escoar. Mesmo com essa confusão toda, tudo correu bem. Chegamos bem tarde no hotel e tínhamos um trem no dia seguinte, destino Hiroshima e Miyajima.


Perto do trem havia isso aqui


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