Hoje decidimos tomar café da manhã como um salaryman, ou seja, como um trabalhador assalariado japonês. Como comer fora aqui não é tão caro, há restaurantes para todas as refeições, inclusive café da manhã.
O café da manhã tradicional japonês é bem diferente do que aquele que conhecemos no Brasil. Eles comem peixe, sopa e arroz de manhã. Queríamos ter essa experiência e fomos a um restaurante que servia este tipo de comida perto do nosso hotel. Primeiramente fizemos o pedido numa máquina, depois sentamos num lugar e esperamos pelo nosso número ser chamado. Buscamos nosso pedido no balcão e comemos.
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| Café da manhã japonês |
O nosso pedido contava com uma missoshiro, que é sopa de missô, salmão grelhado, um pote de arroz, um preparado de carne e cebola além de uma saladinha. Chá era gratuito, como também acontece nos restaurantes de sushi, além de água.
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| No café da manhã |
Notamos que o restaurante não estava lotado, mas que entravam e saíam pessoas com alguma frequência. Inclusive, a pessoa que entrou atrás da gente estava esperando para usar a mesma máquina que na qual estávamos fazendo o pedido, porque era a única que aceitava dinheiro. Pouco depois ele veio à nossa mesa nos entregar um dos tickets que havíamos esquecido de pegar. Ainda notamos que ele estava gravando um vídeo enquanto comia, já já o encontraremos no YouTube.
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| O restaurante do café da manhã |
Dali fomos para o Museu Nacional de Tóquio para ver um pouco do que se produz de arte no Japão e a história geral da arte no país. O museu era enorme e não fizemos nem a metade, visitamos apenas um dos diversos edifícios. Dentre os itens que vimos, havia caixas decoradas, kimonos, espadas e armaduras, bonecos de madeira, guardiões de templos, itens religiosos, biombos, papiros, tecidos e muitos mais.
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| Uma caixa cheia de detalhes |
A minha mãe sempre gostou muito da estética oriental e, por isso, nossa casa tinha diversos destes objetos decorando a sala de estar. Por isto, tenho como referência diversos elementos que ao olharmos conectamos à China e Japão. Por exemplo, lembro-me nitidamente de um biombo pequeno com temática de árvores, leques em vasos, vasos pequenos de porcelanas ou ainda sábios chineses em porcelana.
A nossa sala de estar era dividida em dois ambientes, cada um com uma mesa de centro e algumas mesas que eram postas ao lado dos sofás e cadeiras. Estas mesas centrais e laterais eram decoradas com caixinhas laqueadas, algumas com cadeados, outras que eram caixas de música, e ainda outras com alguns elementos em relevo.
Lembro-me que havia um biombo com uma espécie de jardim 3D separado por duas placas de vidro, compondo uma paisagem. Conto isto para mostrar como estes elementos formaram minha percepção estética e como não vejo nenhum destes elementos como tão estranhos a mim.
O museu contava com objetos de literatura, como por exemplo, um papiro contendo O Conto de Genji, um trabalho clássico considerado o primeiro romance japonês, escrito por uma nobre chamada Murasaki Shikibu, no século XI. Outros papiros, lindamente decorados, eram contratos ou ainda outros contos épicos. O detalhe de cada um destes trabalhos era incrível, obviamente, não eram textos para a massa.
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| Uma ilustração de O conto de Genji, escrito por Murasaki Shikibu e ilustrado por Kano Ryusetsu Hidenobu. |
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| Um kimono formal, uchikake, do período Kamakura |
Um estilo de arte que eu gosto muito é o Ukiyo-e, que é uma espécie de impressão feita a partir de placas de madeira esculpida. O artista cria painéis de madeira que em conjunto pode usar para imprimir em sequência uma cena, cada parte do painel recebe a aplicação de uma tinta que no final das contas é transferida para o meio em que o desenho será criado.
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| A gravura Odai é parte da série The Sixty-nine Stations of the Kisokaido de Hiroshige Utagawa |
Este estilo de arte se desenvolveu entre os séculos XVII e XIX. Um destes artistas que é bem conhecido é Hokusai, que criou uma série de quadros que engloba o famoso A grande onda de Kanagawa. Há outros artistas famosos como Utagawa Toyokuni que tem painéis famosos como Gueixas, Samurais dentre outros.
Na loja do museu, já na saída, havia diversos itens interessantes, mas um que me chamou a atenção em especial foi uma réplica de um par de quadros famosos representando os deuses do vento e do relâmpago e trovão. Esta figura me chamou a atenção pela incrível semelhança com o personagem Blanka, do título de vídeo game Street Fighter 2.
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| Fujin, o deus do vento no shintoísmo |
No jogo a história é que ele teria sofrido uma queda de avião na floresta amazônica e o contato com enguias elétricas teria gerado essa mutação. Porém, depois de visitar o Japão e ter contato com essa figura, não compro mais essa história.
Depois de visitar o museu fomos comer um ramen, este com base de missô. Embora gostoso, ele fica um pouco enjoativo depois de tanto tomar o caldo. Dali pegamos um trem e fomos para o bairro de Yanaka Ginza, que não tem nada a ver com Ginza.
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| Mais um ramen |
A promessa era que Yanaka Ginza fosse ser um bairro charmoso que preservava ainda as características de Tóquio de antes da guerra. Além disso, contaria com diversas lojinhas legais e alguns restaurantes. Chegando lá, notamos que a área da visita é apenas uma rua com diversas lojas, embora de fato o local fosse charmoso, havia pouco para se fazer, algumas lojas estavam fechadas e aquelas abertas não tinham preços tão convidativos.
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| Chegando em Yazaka Ginza |
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| Uma casinha em Yanaka Ginza |
Depois de rodar as lojas, fomos para um outro tipo de mercado de rua, chamado de Ameyoko no bairro de Ueno. Neste lugar vendia-se de tudo, desde tênis até comida, lojas vendendo chá verde, salgadinhos, docinhos e até um supermercado chinês. Neste mercado encontramos um vinagre que estávamos buscando desde que o provamos em Kyoto, trata-se do vinagre preto Shanxi, que é do norte da China. Gostamos tanto que fomos atrás.
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| Rua Umeoko, em Ueno |
Essa região tinha tantas lojas quanto pessoas, tudo muito cheio e confuso. No meio desse caos todo havia um templo, como muitas vezes há no Japão. Há templos por todos os lados, e quando não são templos, há pequenas casas de veneração no meio da rua. Essa rua tinha mais cara de Uruguaiana do que a organização japonesa a que acabamos por nos acostumar.
Encontramos uma loja vendendo produtos de chá verde, tomamos um sorvete de chá verde, como fizemos ao longo de toda nossa viagem. A Pri encontrou alguns chás para levar para o pai dela. Aliás, o pai da Pri é fascinado pelo Japão e conhece muito da cultura. Volta e meia ele nos fazia uma pergunta do tipo: já comeram tal coisa (um nome em japonês completamente específico)? Ou, tiveram a oportunidade de ver (outro nome japonês), que é o festival de tambores? Ele sabe muito da cultura japonesa! Impressionante que saiba tanto de outro país sem nunca ter posto o pé nele.
Ainda havia mais um lugar que eu queria visitar neste dia, como era o penúltimo dia, eu queria fazer o máximo para liberar o último dia e ficar mais tranquilo. Fomos à rua Kappabashi, que é onde há as lojas que fornecem os produtos para os restaurantes japoneses. Mesmo com duas horas para caminhar pela rua, não conseguimos chegar nem perto de explorá-la como se devia fazê-lo.
A rua contava com lojas vendendo todos os tipos de produtos. Produtos de cerâmicas, hashis, facas, copos, panelas, era tanta coisa que valeria a pena dedicar um dia inteiro (e uma mala inteira) para produtos gastronômicos. Eu, particularmente, ainda queria comprar uma tigela de sopa, um hashi e ver o que havia por lá.
Depois de tomar cerveja em todos os lugares com o copo pequeno, que imagino comportar 150 ml, queria um desses para mim. A primeira coisa que fizemos foi visitar uma loja de itens de cerâmica, demos uma volta e, quando perguntei que horas fechava, nos programamos para dar uma volta na rua e voltar em tempo.
Entramos em diversas lojas atrás da tigela de sopa. Não achei nada que gostasse e que ainda lembrasse o Japão. Isto porque se há algo com cor de terra ou cinza, bem rústico, eu gosto, mas isto não lembra o Japão, é um item que pode ser comprado em qualquer lugar. Hashi eu queria um tipo específico, para comer macarrão. Como o macarrão é mais escorregadio, o hashi tem de ter a ponta áspera ou com ranhuras, para aumentar o atrito e não deixar o macarrão escorrer.
A rua também contava com diversas lojas de facas, tive vontade de entrar em todas elas, mas sem tempo, acabei pulando todas. Finalmente a Pri encontrou a loja vendendo itens de vidro e lá comprei os copos de cerveja! Também entramos numa loja que vendia produtos relacionados ao preparo de café e compramos um moedor manual da marca japonesa Hario. Até termos espaço em casa, este passa a ser nosso moedor oficial.
Na volta para o metrô passamos na primeira loja que visitamos na região, comprei a tigela que eu havia gostado, feita no Japão e com desenho que remetia aos padrões que vimos durante a viagem, mas não tão detalhado e com itens japoneses quanto aquela que a Pri comprou na feira em Kyoto. Também compramos dois copos de chá bem bonitos.
Como tínhamos muitas coisas na mochila e em sacolas, decidimos voltar para o hotel para descarregar. Isto porque sabíamos que nos carregaríamos novamente. Nosso próximo objetivo era encontrar um mercado japonês perto do hotel. Indo para um mercado que encontrei no mapa, passamos por diversos restaurantes.
Novamente, os restaurantes ficavam próximos à linha do trem. Isso parece servir a dois propósitos, primeiro é o aproveitamento de espaço, em Tóquio há tanta gente, há tanto público para comida, e falta tanto espaço que cada lugar é aproveitado. Além disso, perto das linhas e, especialmente estações, há sempre gente e isso é público.
No mercado compramos, wasabi, furikake, molho de soja, e até arroz! Contamos com a ajuda de um funcionário que falava bem inglês e acabamos perguntando um monte de coisas para ele. Notamos que o mercado também vendia comida pronta e que isso é algo cultural deles.
Estávamos com fome e fomos jantar, escolhemos outro Izakaya para comer. Escolhemos o bar que nos pareceu bom e pedimos para sentarmos em mesas, não havia mesas disponíveis, foi-nos oferecido o bar. Pedimos para esperar, mas ele falou que não ia ter como. Depois de algumas idas e vindas, aceitamos. Ele então diz que o pagamento só poderia ser feito em dinheiro, com a cabeça respondemos, ok. Ele emenda, dinheiro do Japão. Rimos e falamos, tudo bem.
Notamos que cada um destes restaurantes sempre tem alguma coisa diferente. Estávamos atrás dos espetinhos, mas provamos mais coisas, como por exemplo um bife de kobe ensopado, uma casquinha de siri que, surpreendentemente, estava recheada de macarrão.
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| A entrada do izakaya |
Pedimos novamente a salada de cenoura com batata doce frita, essa deve ser um clássico aqui. Pedimos uns espetinhos de carne e frango e alguns pratos fritos. Foi um belo fim de noite e um ótimo penúltimo jantar.
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| A incrível salada de cenoura e batata doce frita |















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