Acordamos cedo, mas nem tanto, já que havíamos mudado nossa passagem. Isso nos permitiu ir tranquilamente para o ponto pegar o ônibus que nos levaria à estação de trem. Ainda havia tempo e então tomamos o café da manhã na estação mesmo. Esse foi o maior deslocamento terrestre que fizemos, já que além de longo, tivemos de mudar de trem.
Ao chegar na estação, em Jeonju (lê-se cheon-ju) tivemos de pegar um ônibus para ir para o centro histórico e no caminho vimos muitos senhores e senhoras, sentados na rua, vendendo produtos agrícolas. Como já comentei, uma coisa que acabou chamando minha atenção é que apesar dos números, ainda há pobreza na Coréia, não sei mensurar, mas ela é visível. Tanto na rua vimos gente mais velha vendendo produtos quanto nos mercados há senhoras vendendo comidas em tendas no meio dos corredores.
Nossa hospedagem foi numa vila Hanok, que ficava no centro da cidade. Finalmente seria nossa oportunidade de dormir numa casa como faziam os coreanos há não muito tempo atrás. As casas nessa vila eram lindas, os telhados pontudos típicos e muitas delas com jardim interno.
Estas pousadas têm uma administração moderna, o contato é sempre feito por internet, os gerentes dos estabelecimentos não ficam disponíveis in loco o tempo todo. Qualquer coisa deve ser feita pelos canais de comunicação que eles disponibilizam.
Algumas coisas nos chamaram atenção logo que tivemos acesso ao quarto. O primeiro era que o colchão, que era fino, ia direto no chão duro. Muito diferente da nossa expectativa, que foi setada a partir da nossa experiência no Ryokan que ficamos no Japão.
Segundo, o banheiro era novamente do tipo molhado, sem divisão alguma entre o local para tomar banho e o resto do banheiro. A porta era bem fininha e tanto som quanto luz entravam no quarto. Pelo lado positivo, o jardim era bonito e a casa era muito bem localizada.
Assim que deixamos nossas coisas fomos buscar um lugar para almoçar, e encontramos um restaurante que servia o bibimbap original, que foi inventado nessa cidade. Novamente, esse prato é uma espécie de mexidão que deve ser finalizado pelo cliente na mesa, ele vem com arroz, carne e vegetais, além de molhos para misturar. A casa em que ficava o restaurante também era bem bonita.
Nesse restaurante algo curioso aconteceu, depois que chegamos e pedimos, uma família composta por dois hippies e uma filha, suponho eu que franceses porque esse era o idioma que falavam, chegou. Por algum motivo o perfume natural axilar com notas lembrando o resultado de uma semana de cura sem sabão cortava pelo ar e chegava a mim, agredindo meu nariz.
Por sorte, cinco minutos depois de sofrer com o miasma, o dono da fragrância pediu ao dono do estabelecimento para desligar o ventilador e minha penúria teve fim. Voltei a sentir o sabor do prato.
Depois de sair do restaurante, revigorados por termos nos alimentados, e eu em especial por voltar a respirar tranquilamente, fomos em direção ao centro histórico.
Caminhamos por ruas com aspecto mais moderno, vimos lojas vendendo caixinhas para guardar jóias decoradas com madre-pérola, diversos produtos de papel, como por exemplo leques, cúpulas de abajures, desenhos para enquadrar, etc...
Fomos caminhando, nos afastando dessa área para visitar outros pontos que havíamos marcados no mapa, um deles era o portão Pungnammun, que se localiza no sul e é o único remanescente dos quatro portões originais. O portão atualmente fica numa rotatória e em volta dela há todo o tipo de comércio, além de um mercado de comida noturno, cujo funcionamento se dá nos finais de semana.
Nessa região foi a primeira vez que notei um cheiro típico que comecei a sentir ao longo da viagem, era uma espécie de cheiro de chá, tanto doce quanto levemente ácido, tinha algo de canela, mas parecia uma mistura de outras coisas. Eu não consegui identificar o que era, cogitamos ser um chá medicinal ou o resultado da cocção de diversas coisas e este ser o resultado olfativo desta mistura de vapores.
Curiosamente, perto dali, havia a catedral da cidade, num estilo europeu que fazia parecer que aquilo não estava situado no lugar certo. Nessa cidade fica a maior vila tradicional Hanok da Coréia do Sul e toda loja e negócio no centro fica numa destas construções.
Já estávamos andando há um bom tempo e havia outra padaria com docinhos tradicionais que queríamos visitar para provar as iguarias. Saímos um pouco da área para buscá-la. Novamente, em termos de doces, uma nova decepção. Os doces alardeados como sendo imperdíveis eram insossos, com ingredientes de baixa qualidade que não nos deixou feliz. Eu deixei minha parte depois de uma única mordida. Por sorte, em termos de cafeterias, a Coréia vai muito bem e encontramos um lugar bem legal para tomar o café da tarde.
Havia um lugar legal dentro do centro histórico que ficava um pouco mais alto e que parecia ter uma boa vista para a vila, subimos já que era fim de tarde e aproveitamos para ver o pôr do sol desse ponto. Depois de o sol ter sumido, saímos pelo outro lado do monte para ainda visitar uma construção histórica em cima de uma ponte. Caminhamos pelo outro lado do rio Jeonjucheon.
Já estava escuro e, como se tornou hábito nesta viagem, ao fim de um dia de andarilho, nada melhor do que uma cerveja. No caminho para a cervejaria que eu havia marcado no mapa, havia um conjunto de edifícios tradicionais aberto à visitação. Aproveitamos a oportunidade para ver do que se tratava. Era o complexo Jeolla Gamyeong, sede administrativa da região durante o reino da dinastia Joseon (cho-san). O lugar era enorme e visitamos diversas partes do enorme complexo.
Estávamos tão perto da cervejaria que fomos andando. Notamos que ela ficava numa rua com diversas lojas e restaurantes, pareceu ser uma região muito legal. Bem perto do destino, antes de chegarmos, notamos um prédio com um relógio enorme, parecia ser um café. Confirmamos e o mapa nos disse que de fato era um café.
Finalmente entramos na cervejaria, que além de tudo era muito bonita por fora. Tomei algumas cervejas, a Pri comeu a pipoca que eles ofereciam de graça, além de também termos pedido outras coisas para tomar e comer. Logo que entrei notei uma coisa, o casal hippie de antes estava dentro do bar, resolvi manter a distância regulamentar para não ter de sofrer novamente.
Na hora de escolher onde jantar, vi no mapa um restaurante de churrasco que estava muito bem avaliado. Embora fosse noite, resolvemos encarar o desafio. Fomos andando pela rua, vendo diversos restaurantes interessantes e, inclusive, passamos por uma rua com decoração chinesa, provavelmente onde ficavam restaurantes e lojas dessa comunidade.
Que boa decisão ter escolhido este restaurante, além de atendimento exemplar, a comida estava muito boa. Pudemos escolher os cortes de carne que queríamos, pedimos também uma sopa de tofu com kimchi e eu ainda peguei uma cerveja diferente que ainda não havia tomado. Como de hábito, nos deram um avental para evitar que nos sujássemos e a carne foi assada por um dos garçons. Acho que eles conhecem os locais e não deixam o turista à sorte, evitando assim arruinar a comida e a reputação.
Agora sim, o dia havia encerrado e podíamos voltar para casa com sensação de dever cumprido.

























Um comentário:
Morri de rir com o hippie. E o cecê te perseguiu! Muito bonita a Vila Hanok.
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