Em cada viagem tentamos fazer algo diferente, nesta decidimos ter um dia de estadia num templo budista. Havia várias opções em muitas partes do país, aparentemente isso se tornou algo comum na Coréia e dá aos participantes a possibilidade de ver como é a vida de um monge.
Ainda não era a hora de chegar ao templo, que seria perto de duas da tarde, então aproveitamos a manhã para explorar algumas coisas que ficavam perto de nosso hotel, mas que ainda não tivéramos a oportunidade de visitar. Mas antes, deixamos nossas malas na recepção, armazenadas no corredor. Como estamos na Coréia e tudo no hotel é filmado, não vimos grandes problemas. Além do mais, andar pela cidade com malas para uma noite de estadia seria demasiado.
Bom, a região que visitamos era uma que era conhecida pela oferta de itens manufaturados, em inglês essa categoria é chamada de craft, em português ficaria incompleto chamar de artesanato, porque é mais do que coisinhas feitas à mão.
Ao chegar no bairro, caminhamos um pouco pela rua principal, notamos que a maioria das lojas ainda estava fechada e decidimos procurar um café. Encontramos um numa rua mais para dentro. O estabelecimento tinha uma entrada normal, mas ao entrar, algumas casas do estilo Hanok formavam um pátio interno agradável.
Fizemos o pedido, eram dois tipos de café, um deles o especial da casa. A Pri tinha na mochila um croissant especial que havia comprado na noite anterior e esse acompanhou nossas bebidas.
Insadong, o nome dessa região, tem uma variedade enorme de lojas, por exemplo, algumas comercializando itens tradicionais, como as caixinhas decoradas com madre-pérola que são comuns por toda a Coréia, papéis especiais, engrenagens de papelão e madeira (imagino que mais por ser legal do que por ter alguma utilidade prática), cerâmicas para todos os gostos, tinta de escrita, tecidos e roupas tradicionais, outras vendendo pincéis de escrita, aliás, isso vale um comentário.
Só descobriríamos isso depois, no final da rua, por conta de um monumento que era um pincel gigante metálico marcando a região. Embora houvesse várias lojas dedicadas a este utensílio de todos os tamanhos e formatos, eu ainda não havia me dado conta de isso aqui ser um centro deste tipo de item.
O mesmo distrito também abriga lojas de chá e produtos comestíveis tradicionais. Como já falei, embora grande parte das lojas estivéssem fechadas, deu para ter uma boa ideia do que há na região e, numa possível próxima visita, já saberíamos o que e onde comprar qualquer coisa que nos houvesse interessado.
Já se aproximava das dez horas e um prédio cheio de lojas legais estava abrindo, entramos e começamos a explorar o local. Havia uma rampa que nos conduzia pelos quatro andares do edifício. O que fizemos foi começar do térreo e ir subindo. Já no segundo andar encontramos uma loja bem interessante com produtos com decoração de madre-pérola. A Pri gostou de uma caixinha e resolvemos comprá-la, a loja também oferecia curso de como fazer itens com madre-pérola. Se tivéssemos um pouco mais de tempo disponível, este seria um curso que ela teria feito.
Entramos em outras lojas, como uma em que era possível personalizar com decalques itens como estojos de pano, carregadores de mala, etc. Vimos lojas de lenços, todos bem bonitos, bolsas feitas com tecidos tradicionais e até uma loja vendendo perfume sólido. A Pri agora é dona de um perfume em barra.
Antes de entrar neste edifício, havíamos visto um restaurante com um vidro enorme na frente mostrando o interior onde três pessoas estavam fazendo gyozas com as mãos. Vale aqui uma explicação, na Ásia, este tipo de massa recheada é muito comum, mas se pararmos para pensar, isso é algo que existe no mundo inteiro e pelo que já li a respeito, se espalhou justamente a partir do extremo Oriente.
Japão, China e Coréia possuem cada uma sua própria versão, em geral, cozidas no vapor, embora também possam ser fritos. A Índia tem uma variedade frita chamada de samosa, os demais países do sudeste asiático também têm interpretações do prato, sendo que nestes países o tamanho seja um pouco maior e o formato mais parecido com o de um pão ou mini-pão.
Na Europa, especialmente no leste europeu, não é diferente. Na Polônia estes pastéis são chamados de pierogi, e em vez de cozidos no vapor ou fritos, são feitos na água. Eu já tive o privilégio de comer diversos destes em 2008. Na Ucrânia são conhecidos como varenyky ou krepli, na Rússia são também chamados de vareniki. O nome varia de acordo com o recheio. Curiosamente, em Yiddish chamamos estes pastéis de vareniki e krepalach, também de acordo com o recheio.
Pois bem, depois dessa volta linguística, falemos do restaurante. Ele ficava ao lado de um local bem arborizado com algumas galerias de arte, numa rua lateral, ou seja, não era fácil encontrar já que não ficava a vista de todos.
Quando voltamos, já na hora do almoço, havia fila. Resolvemos esperar, o que não tomou muito tempo, já que pela quantidade de placas Michelin que havia na porta, algo bom o restaurante devia servir.
Pedimos dois pratos feitos com os mandus, como chamam a gyoza em coreano. O primeiro prato era um caldo no qual os pastéis de kimchi vinham cozidos no vapor (ou no próprio caldo), já o segundo era um conjunto com seis mandus de três sabores diferentes: cogumelo, carne de porco e kimchi.
Todos estavam bons, mas na nossa humilde opinião, não justificavam nem a fila nem as plaquinhas Michelin. Eu estou começando a desconfiar que os critérios de julgamento para se obter uma menção nesta famosa lista, já que aqui não se tratava de estrelas, não são os mesmo critérios que eu julgo para classificar um restaurante bom. Aliás, a Pri tem um critério bem peculiar para saber se um restaurante é bom, ela se pergunta se voltaria ao restaurante? Eu proponho um refinamento deste critério, para trazer maior dramaticidade, digamos que você tenha tempo restrito, está no último dia de uma viagem e não voltará à localidade tão cedo ou digamos que haja qualquer outra restrição severa de tempo, você voltaria para ter mais uma refeição?
Nesta viagem poucos lugares atenderam a este critério, aliás, em geral, isso é o que acontece. Agora, de todas as nossas viagens, Japão e Itália tiveram mais restaurantes que entraram nesta categoria. Há diversas refeições com as quais ainda sonhamos, ou, pelo menos, que gostaríamos de repetir.
Já era hora e tínhamos de ir para o templo. Como nos planejamos para isso, cada um tinha apenas uma pequena mochila/sacola consigo. O templo ficava no bairro de Gangnam, o mesmo que visitamos para ir à clínica de beleza. Não deixa de ser um contraste notável que um templo budista, refúgio da introspecção, meditação e pensamento esteja no meio de um dos bairros mais luxuosos da cidade. Isso é mais uma coincidência do que algo feito premeditadamente. Essa área de cidade ficava mais afastada e foi somente com a expansão da cidade que esse contraste se fez notar.
Parando para pensar, este tipo de ambiente, urbano e consumista, é o que mais carece de um refúgio espiritual, já que as pessoas podem facilmente se perder em buscas por coisas temporárias e inócuas, e o templo é uma boa âncora da realidade.
Chegando lá, nos informamos na entrada aonde tínhamos de ir para realizar os trâmites iniciais. Fomos direcionados para um edifício específico dentro do complexo, recebemos nossas roupas, uma pequena orientação sobre os quartos e sobre qual seria o próximo passo.
A construção em que nos hospedamos era formada por três partes retangulares que se conectavam como num quadrado sem um dos lados. Cada uma destas hastes desse quadrado tinha o formato retangular. Podemos chamar este formato de "U". A entrada de cada edifício se dava pelo pátio interno que se formava pelas paredes de cada haste.
Os quartos de hospedagem ficavam no segundo andar do edifício do meio, oposto ao lado sem a haste. No andar térreo dessa construção ficava o salão principal e a escada que levava ao segundo andar.
No edifício da direita ficava o salão do chá, que contava com uma enorme mesa, e uma pequena copa. Esta ficava bem perto da escada que levava ao segundo andar. À esquerda ficavam alguns escritórios em que os coordenadores deixavam alguns itens.
Subimos pela escada para conhecer o quarto, trocar de roupa e deixar nossas coisas. Recebemos cada um uma calça enorme e um colete. Esperamos dar a hora de descer, que havia sido informada pelo organizador de eventos do dia.
Descemos, recebemos outras instruções sobre como nos comportar no templo, por exemplo, sempre caminhar em silêncio e em fila, sempre tirar os sapatos para entrar nos locais, não fazer barulho, etc.
A primeira atividade de fato que tivemos foi um passeio guiado pelo centro. Coincidentemente, quem nos guiou na visita fora o mesmo senhor para o qual pedimos informações ao entrarmos no complexo. Esse cara era uma figura, toda vez que alguém respondia ou fazia uma pergunta, ele dava uma pulseira do templo como recompensa. Chegou um momento em que um camarada da Holanda tinha o braço repleto de pulseiras e um pouco de vergonha de continuar fazendo as perguntas porque já tinha pulseiras demais.
Nestes templos, todas as edificações são de madeiras, tudo é pintado e tudo tem um significado. Os menores detalhes são pensados e trazem toda a estética que nos fazem identificar este tipo de religião. Como o budismo veio da Índia, imagino que estas regras de cores que acaba por determinar a estética destes edifícios não seja originária daqui.
No passeio aprendemos que o primeiro buda fora um príncipe indiano de nome Siddhartha. A lenda diz que seu pai havia sido alertado que o príncipe, seu filho, seria alguém importante do ponto de vista religioso. O pai, com medo de não ter herdeiros e de que seu filho não seguisse seus passos, o isolou no palácio numa vida luxuosa e confortável, isolada dos problemas do mundo.
O filho só tinha contato com pessoas jovens, nunca via ninguém doente, achava que a vida era bastante controlada. Surge nele a ânsia de conhecer o mundo real e ele foge do palácio com seu motorista (ou melhor, condutor de charretes) e acaba por descobrir o mundo caótico, bem diferente daquele em que até então vivia.
Ocorrem quatro episódios que mudam radicalmente sua visão da vida. Ele vê um idoso, um doente, um cadáver e um monge. Cada um destes encontros com uma realidade mundana traz um desconforto e o expõe a um aspecto da realidade que o leva à reflexão. Ele então renuncia aos luxos e à sua vida anterior e se dedica à meditação. Essa é a origem do budismo de acordo com a lenda.
Pinturas contando esta história apareciam numa das edificações do templo, na parte de fora. Depois desse tempo passeando pelo templo e conhecendo as partes que o compõem, voltamos para o local onde ficava o dormitório, mas fomos para o salão no primeiro andar.
Lá fizemos uma aula de caligrafia com pincel. Pudemos copiar um trecho em coreano cada um, com um pincel e uma tinta dourada. A tinta precisava ser mexida cada vez que queríamos escrever, porque o dourado decantava. Além disso, o pincel acumulava muita tinta, então antes de escrever era necessário retirar o excesso. Outra coisa que notei é que pincel é muito suscetível à pressão. Eu achei dificílimo escrever com este instrumento, a Pri já parecia fazê-lo há anos e o papel que ela fez parecia o resultado do trabalho de um escriba.
Cada vez que íamos começar a escrever numa nova linha, a instrutora batia num instrumento que parecia com uma cumbuca e que fazia um som que se espalhava pelo ar.
O jantar seria servido à 17:00, um pouco cedo, mas como estávamos sem comer desde pouco antes do meio dia, fome não era problema. Saímos do salão e fomos para o refeitório, andando em fila indiana atrás do coordenador do programa. Entramos numa outra edificação bem afastada do local em que estamos hospedados.
O refeitório ao qual tivemos acesso era pequeno em relação ao refeitório principal dos monges, que apenas vimos no caminho. A comida era completamente vegetariana, imagino que até vegana, já que não comemos nada feito de leite ou ovos. As comidas tinham todas o gosto bem parecido.
Assim que saímos do jantar fomos assistir a um monge tocar os instrumentos do templo. O ritual teve início no tambor enorme que ficava numa estrutura com cobertura. O ritual até que demora um pouco, o monge tocando o tambor utilizou toda a pele do enorme tambor bem como a madeira que a prende ao corpo do instrumento.
Logo depois de tocar o tambor, o monge foi tocar um sino igualmente enorme. Uma garota que não fazia parte do programa viu as pessoas se dirigindo para tocar o sino e entrou no meio, o monge ainda tentou explicar que não estava aberto ao público, mas já era tarde, a menina insistiu e tocou o sino mesmo assim. Cada um dos participantes tocou o sino em dupla, com o auxílio do monge.
Então, fomos levados ao salão num dos três edifícios que compunham o complexo de recepção de quem fica no templo. Lá nos instruíram sobre o budismo e participamos de uma aula instrutiva de meditação. Não foi a primeira vez que tive aulas disso, não é algo fácil de se fazer. Manter-se sentado numa posição confortável por muito tempo respirando de maneira sincronizada demanda muito.
Deram-nos tempo livre até a hora de dormir, aproveitamos para passar pelo templo. Visitamos diversas partes dele, como por exemplo, o buda gigante, edificações mais afastadas, além de partes menos interessantes.
Voltamos para o edifício e fomos dormir, já que às quatro da manhã teríamos de acordar para ir à cerimônia às 4:15. Voltaremos amanhã deste ponto.





















Um comentário:
Adorando a experiência Hare Krishna!
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