terça-feira, 27 de outubro de 2026

O quinto dia em Seul

Que gostoso acordar às quatro da manhã, nas férias, para acompanhar um ritual de reza matinal de monges! Assim que acordamos, logo tivemos de descer para nos encontrar com o nosso coordenador. Este era o coordenador que já havia começado a nos acompanhar ontem no final da tarde, foi ele quem nos orientou na meditação e quem já havia tentado preparar chá (numa tentativa frustrada na qual acabamos tomando várias xícaras de água quente com leve sabor de chá) no dia anterior para a gente.

Fomos andando para o templo, entramos pelo canto e ficamos em lugares reservados, à esquerda, próximo à parte da frente. Os monges já estavam rezando com fervor, e não estavam sós. Havia muitos devotos acordados e realizando o ritual de se curvar no chão a cada orientação do monge que conduzia os trabalhos. 

O local das preces matinais

Eu achava que rezar às 6:40 da manhã na escola era muito cedo, agora já estou achando que era tarde. Assistimos à reza talvez por trinta ou quarenta minutos. Saímos de lá e voltamos ao salão. Os monges e outros fiéis continuaram por lá rezando. 

A próxima atividade programada (ou exercício matinal) seria realizar cento e oito prostrações, ou seja, cento e oito movimentos de se curvar e agradecer ao que tínhamos na vida. O mais interessante não era o movimento extenuante, que deixei de lado, já que fiquei sentado enquanto um coordenador entusiasmado guiava os demais visitantes, e sim o texto que traduzia cada uma das preces. Havia muita coisa interessante e cada frase merecia ser analisada sob o prisma filosófico.

Depois desse exercício, fomos tomar o café da manhã, que se parecia muito com o jantar, e que eu aposto, deve ser igual ao almoço. O budismo prega, dentre outras coisas, uma vida comedida, sem grandes emoções e a alimentação deles reflete isso. Há uma proibição de uso de ervas e temperos "pungentes": alho, cebola, alho-poró, cebolinha e outra que eu nunca ouvi falar, chamada asa-fétida. Essa proibição segue essa ideia. Além de outras crenças como os potenciais problemas que tais ervas podem trazer. É uma espécie de comida vegana com mais restrições ainda, que entusiasmante, êêê.

Café da manhã, almoço ou janta?

Depois do café da manhã tivemos tempo livre até a atividade seguinte. Aproveitamos e fomos à entrada do templo, vimos o templo de fora, já havia muita gente esperando que a lojinha de itens que ficava logo na entrada abrisse. A Pri queria ver o que se vendia na lojinha, por isso estávamos por lá. Não demorou muito, a lojinha abriu e logo encheu de gente. As pessoas chegam a toda hora no templo, inclusive de madrugada. De manhã não foi diferente, elas entraram na loja, compraram itens de devoção e oferendas, e seguiram sua manhã religiosa.

A cozinha antiga era assim, não sabia que com uma cozinha moderna à disposição ainda a utilizavam

Nós encontramos com o nosso coordenador que perguntou se não queríamos dar uma volta pela floresta do templo. Demos uma bela volta por toda a mata que ficava na colina que circundava as principais edificações do complexo, mas ainda dentro da área do templo. Era um caminho que muitas pessoas utilizam com o intuito de fazer exercício, havia até algumas senhoras fazendo o percurso.

Terminada a volta, fomos procurar um café porque a Pri gosta de tomar café pela manhã. Primeiro fomos a uma loja dentro do templo que estava por abrir. Ao entrar, ela notou que só chá era vendido. Seguimos passeando um pouco mais pelo templo, vendo algumas construções e nos deparamos com uma loja temporária, bem perto do prédio em que estávamos hospedados. Havia café, porém, só aceitavam dinheiro e não tínhamos espécie. O café teria de ficar para mais tarde.

A última atividade que constava na agenda durante nossa estadia seria uma conversa com um monge, ou melhor, iríamos tomar chá com o monge e ainda conversar com ele. Essa foi uma conversa curiosa, porque o grupo era bastante heterogêneo, a começar pelo monge. A primeira pergunta que fizeram não foi respondida diretamente, o monge começou a brincar com a menina que havia feito a pergunta sobre como ajudar um amigo que estava sem propósito na vida. No final ele disse que era muito difícil ajudar uma pessoa sem conhecê-la.

Depois foi a vez da Pri de perguntar. De acordo com ele, a pergunta havia sido muito pessoal: "O que levou o monge a ser um monge?" E a resposta que ele deu foi surpreendente. Em resumo, os pais dele brigavam muito em casa e ele não era um estudante exemplar, a vida no templo foi uma solução perfeita para sair de casa sem ter de passar necessidade. Acho que isso já quebrou completamente o gelo, já que todos esperavam uma decisão bem ponderada após uma reflexão sobre o mundo, o estado das coisas na modernidade, ou qualquer coisa nesse sentido.

Como o monge já havia classificado essa pergunta como muito íntima, ele disse que não nos conhecia tão bem e com isso pediu que nos apresentássemos. Foi isso o que fizemos. A Pri ainda fez uma segunda pergunta, como era o dia a dia dele. 

Eu que havia pensado em fazer a mesma pergunta que a Pri, tive de pensar em outra coisa. Perguntei o motivo pelo qual uma religião estrangeira, como o budismo, se estabeleceu e se espalhou na Coréia. Ele disse que culturalmente é fácil para um coreano aceitar uma divindade de origem nobre, diferentemente de outras religiões em que a divindade vem das camadas populares. Além disso, ele também citou outros fatores culturais que se alinhavam.

Entre os visitantes havia uma chinesa que parecia mais interessada em ensinar coisas do que em aprender, uma latino-americana que estava lá somente para acompanhar uma amiga e um holandês que buscava respostas existenciais tendo sido encorajado pela mãe a fazer essa viagem de auto-descobrimento.

As respostas do monge eram tão corriqueiras e prolixas que eu imediatamente me senti como numa conversa de bar, porém, tomando chá. Foi uma experiência para lá de diferente, já que a expectativa que eu tinha era alguém que havia lido bastante filosofia e conseguiria traçar comentários elevados sobre os mais diversos temas mundanos e espirituais. Foi uma quebra de expectativa e tanto, que me fez lembrar que no final das contas, todos somos seres humanos, até os mais estudados são capazes de falar coisas simples, sem importância e que isso acontece em todos os cantos do mundo com todo o tipo de gente. 

Aliás, é fenômeno conhecido com os ganhadores do prêmio Nobel. Em áreas do conhecimento que não são do seu estudo, dão opiniões completamente absurdas, erradas e sem cabimento. Ou seja, é possível você ser extremamente conhecedor e competente numa área e ser completamente ignorante, até mais do que pessoas sem  nenhuma formação acadêmica. Pode ser que isso reforce minha ojeriza à autoridade e aos títulos como classificadores de opiniões. Eu gosto de ver os fatos e de discutir tópicos. Nunca generalidades, nunca abstrações.

Finda essa conversa, voltamos ao quarto para nos arrumar, trocar de roupa, devolver a roupa de cama e seguir nossa viagem. Voltamos à civilização e nosso primeiro ato foi tomar um café. 

Depois de degustarmos um café e um doce, tomamos um ônibus de volta ao nosso hotel, pegamos nossas malas, fomos para o outro hotel, fizemos o check-in, deixamos as malas, nos arrumamos e fomos para a região de Seongsu. 

Essa é uma região que outrora abrigava diversas fábricas e foi uma das últimas a mudarem de propósito. Ainda é possível ver os diversos galpões, agora convertidos em lojas de marca, cafés e restaurantes. As ruas ficam abarrotadas de gente, como era final de semana, tivemos a impressão que famílias percorriam a região como atividade de passeio. 

Essa loja de tênis tinha uma entrada um pouco diferente

Esse nem era o trecho mais cheio de gente. A rua não estava fechada para o trânsito e de vez em quando um carro ou moto passavam pelo meio da turba

A gente visitou diversas lojas, fomos à loja da Miffy, que é um personagem holandês de quadrinhos, bem cotado por aqui. A loja era legal, não compramos nada. Entramos em outras lojas, cujas fachadas eram bem interessantes. Com o espaço disponível, a criatividade tinha como ser ousada e havia coisas bem diferentes. Visitamos uma loja de produtos de cabelo que se parecia com um grande banheiro. Havia uma parte que era a ducha e outra que era a banheira.

Já essa loja reproduzia um banheiro

Uma entrada antiga ainda intocada

Depois buscamos um outro café, chamado de Onion. O lugar era enorme, composto por diversos espaços divididos, que antigamente deviam ser estações de trabalho. A decoração era bem rústica, mas o que chamava a atenção eram os cafés incríveis e uma seleção acima da média de doces e salgados. A gente apenas tomou café, mas também comprou um café torrado deles para trazer. 

Fachada do café Onion

E seu interior

Soda, café, Pri e Dani

Havia ainda um prato da culinária sino-coreano que nos faltava provar, era o Jjajamyeon, que é um macarrão com um molho espesso à base de soja preta fermentada. Encontramos este prato num restaurante perto do café, aproveitamos e pedimos porco frito, que eram os dois carros chefe da casa. Aliás, eram tão famosos no restaurante que contavam com a versão inteira e a versão meio a meio. A comida estava boa, um pouco doce até, mas novamente, esse não é um prato espetacular.

Jjajamyeon e porco frito com molho

Caminhamos mais por uma outra seção do bairro, a Pri avistou uma loja de artigos de escrita, e como ela sabe que eu adoro este tipo de coisa, insistiu para que ficássemos na fila para visitar a loja. Eram três andares de diversos materiais, variando de canetas tinteiro a cartões de aniversário. Os artigos vendidos na loja me interessavam muito, são as coisas que eu adoro ver, mas não faço questão de comprar. Como não encontrei nenhuma caneta ou lapiseira que tivesse gostado, saí de mãos abanando. Já a Pri encontrou uns cartões que acabou comprando.

Venda de artigos de papel

Itens interessantes de ver, mas não de ter

Este bairro era muito grande e ficava perto de um parque igualmente grande. Resolvemos caminhar em direção ao parque para ver como os coreanos se divertiam em dias livres. 

Ainda assim, no caminho havia muitas lojas, embora elas começassem a ficar menores, contudo, ainda mantendo bastante personalidade. Paramos numa loja para comer um doce com recheio de maçã, a Pri trocou algumas palavras com um coreano que nos havia perguntado se o doce estava bom. Ele ficou contando a história para a família e amigos dele, pelo menos é isso que imaginamos já que ele repetia a frase em inglês que a Pri havia utilizado para classificar a torta de maçã.

Um chafariz no meio do parque/floresta

A vista para edifícios enormes

O parque estava lotado, porém, tudo era bem organizado, o público ordeiro e o elevado número de pessoas não parecia causar o caos que esperaríamos de um lugar com tanta gente. Já era o final da tarde e ainda havia mais o que fazer, Seul tem muitas atividades. Então, saíamos do parque para pegar um ônibus, para então depois pegar um trem que nos levaria a uma região próxima ao rio Han. Daquele ponto, caminharíamos até chegar a um parque colado à ponte em que ocorreria um show de água. A ponte no qual o show ocorreria estava fechada e havia barraquinhas de comida por grande parte de sua extensão. 

Acho que boa parte da população da cidade teve essa mesma ideia e resolveu fazer o mesmo programa. Para chegar ao parque do lado da ponte, tentamos ir pelo lado da rua em que o metrô havia nos deixado, mas havia tanta gente que o caminho se estreitou quando chegamos a uma ponte prévia que levava ao local em que queríamos chegar.

Resolvemos voltar, atravessar a rua e ir pelo outro lado. O fluxo estava menor neste lado da rua, mas quando nos aproximamos do parque, era necessário pegar uma escada para chegar ao nível dele, que era mais baixo do que o nível em que estávamos. Aí pegamos uma fila de muitas pessoas, mas pelo menos essa fila andava.

O show de água

Aqui, visto a partir da ponte

Finalmente chegamos no parque que estava lotado, famílias estavam com toalhas de piquenique estendidas por todos os lados, a pequena arquibancada estava tomada por gente. Por sorte encontramos um espaço para sentar. Já acomodado notei uma coisa curiosa, os coreanos tiravam os sapatos para pisarem nas toalhas, assim como fazem em casa. 

O magnífico show de mangueiras, ops, de jatos d'água

Esperamos por volta de quarenta minutos para o início do show. Quando o show começou, nenhuma música era conhecida e uns canhões de água jorravam-na no rio Han. Em pouco mais de dez minutos de show saímos, passamos pela ponte na direção oposta pela qual chegamos, não conseguimos comer nada por conta das filas, mas pelo menos pudemos ver o show desde a ponte. 

Algumas construções iluminadas na região da ponte

A saída do show não foi menos demorada. Caminhamos outros trinta minutos para tentar pegar um ônibus longe da multidão. Não encontramos ônibus algum, as primeiras gotas que anunciavam uma chuva começaram a cair. Decidimos chamar um taxi pelo aplicativo, enquanto procurávamos um lugar com boa referência, avistamos uma loja de conveniência, decidimos comprar alguns quitutes, chamamos o táxi pelo aplicativo e fomos para uma loja de cadeia de frango fritos.

Desenhos como esse adornavam a ponte em alguns trechos

A loja escolhida ficava perto do nosso hotel, e foi esse o motivo da escolha da localização do restaurante. O caminho estava livre, o que muito nos animou. Essa cadeia de restaurantes se chamava BHC. Pedimos um primeiro frango que veio num pó que lembrava o tempero de Doritos. Não era bom, muito artificial. Depois pedimos outro frango, esse sim melhor. Mas por incrível que pareça, o melhor frango até o momento foi o que comemos em Busan, no restaurante que parecia um filme do Tarantino.

Frango frito envolto em pó de Doritos

Frango frito realmente crocante

Saímos do restaurante e ainda chovia, entramos na rua principal e passamos por um bar subterrâneo que tocava Oh My Love do John Lennon, fiquei gravando o som por esta saída e a Pri correu para se abrigar na entrada de um prédio. Ao chegar e trocar algumas palavras com ela, o senhor que estava ao lado dela começou a conversar conosco em português! Era um brasileiro de traços orientais que morava em Seul. Essas coincidências da vida.

A música saindo do sub-solo

Corremos pelas ruas molhadas, nos abrigando da chuva quando possível, até chegar ao nosso hotel. Mais um dia lotado.

Um comentário:

Anônimo disse...

Adorei o monge! Hahahaha!