quinta-feira, 15 de outubro de 2026

A ida para Gyeongju

A gente pegou diversos feriados nesta visita à Coréia do Sul. Para nós, intrépidos viajantes, o significado do feriado é que as coisas podem fechar e pode haver muito trânsito e indisponibilidade de passagens de transporte público.

Em Busan (que lemos Pu-san) não percebemos muitas coisas fechadas, mas como escrevi anteriormente, o mercado Jagalchi estava fechado. Em nossas pesquisas, já sabíamos que em Seoul os palácios tinham as entradas gratuitas. Mas, em termos práticos, pela escolha que fizemos de itinerário (baseado na melhor logística de movimentação), o problema poderia ser o deslocamento para Gyeongju (novamente aqui, lemos ki-eong-dju).

Como a viagem era curta, tínhamos a esperança de não ter problemas comprando as passagens, que só abririam para quem não mora na Coréia um mês antes da data da viagem no trecho. Dito e feito, conseguimos comprar as passagens. 

A viagem de trem foi bem tranquila, porém, a estação em Gyeongju ficava um pouco afastada do centro da cidade. Para chegar ao hotel tivemos de pegar um ônibus que nos adicionou mais uns 30 minutos de deslocamento, praticamente o mesmo que o tempo de viagem entre Busan e Gyeongju. O hotel era bom, fizemos o check-in, redistribuímos as coisas entre as malas, pegamos uma muda de roupa para trocar e deixamos as malas guardadas na recepção.

Enquanto eu esperava a Pri trocar de roupa no banheiro, um cara se aproximou de mim e começou a falar em hebraico, perguntando se éramos israelenses. Respondi que era brasileiro e que por acaso falava hebraico. Ele pareceu meio confuso. Como estamos no feriado de Sucot, ele me ofereceu um lulav (uma planta cuja forma lembra uma folha de palmeira fechada, pontiaguda e longa) que havia ganhado de um emissário do Chabad (este é um grupo de judeus ortodoxos hassídicos, de origem européia que tem como missão levar o judaísmo alegre a todos os judeus do mundo) de Seul. 

Eu agradeci e falei que não queria a planta. Só quando ele foi embora depois de conversar que notei que ele tinha o lulav dentro da mochila, em riste como uma antena de comunicação, como teria um soldado responsável pela comunicação em décadas anteriores.

Uma pequena explicação, na festividade de Sucot, que relembra o período em que o povo judeu esteve morando em cabanas no deserto (e que marca o fim da estação da colheita, sendo essa a origem que me parece mais provável), é costume utilizar quatro espécies de plantas distintas para realizar bençãos. 

Há diversas interpretações a utilização de quatro espécies. Uma delas diz que cada uma das espécies representa um tipo de personalidade que há em comunidades, outra é que elas representam partes do corpo humano, mas independentemente das interpretações, a conclusão é que se faz necessário haver unidade e que as partes funcionam corretamente em conjunto. Voltando...

A Pri chegou e seguimos nossa viagem. Nossa primeira parada foi uma padaria que era especializada em apenas uma única coisa, doce recheados de pasta de feijão doce (Hwangnam-ppang). A linha de montagem deles era organizada e era possível ver do salão o que se passava na cozinha, que era aberta e ficava logo atrás do balcão. Há montanhas de pasta de feijão e diversas estações de trabalho onde os funcionários preenchem os bolinhos antes de irem para o forno assar.

A padaria que servia Hwangnam-ppang

Montanhas de pasta de feijão doce

Novamente, esse é mais um exemplo de que as sobremesas que provamos no extremo oriente não fazem o meu gosto. A Pri até gosta destas coisas, mas para mim não dá, não é o que eu gosto. 

O docinho

Estávamos a caminho dos grandes montes de terra (voltaremos a eles em detalhes) que são a marca característica de Gyeongju, quando vimos um ponto de ônibus muito bonito e uma estrutura de madeira protegendo um sino, destes que normalmente vemos em templos. Lendo um pouco, a Pri notou que em poucos minutos se daria uma cerimônia, esperamos e logo a seguir vieram algumas pessoas para tocar o sino. Um era o responsável pelo cuidado do local, percebemos isso porque ele tinha uma chave, além dele, uma família o acompanhava. 

A estrutura que abrigava o sino

Ele subiu as escadas e abriu uma portinha que dava acesso ao sino. A família o acompanhava, ele deu algumas instruções para a família e, se revezando, as crianças tocaram o sino ao seu comando. Outras pessoas se juntaram para ver o que estava acontecendo e começaram a filmar também.

O sino

Um lindo ponto de ônibus

Caminhamos um pouco e chegamos no museu que explicava o que era toda essa área cheia de montes, entramos. O museu, acho que por conta do feriado ainda, oferecia entrada gratuita. Lá aprendemos o que eram estes montes de terra que salpicavam toda a região turística em que estávamos. 

Um monte ou uma tumba?

Estes montes na verdade são tumbas onde os reis do Reino de Silla (de I AEC a X EC) eram enterrados. O museu detalhou a construção destas tumbas, começando com a escavação de uma área retangular onde uma espécie de armação de madeira com divisórias era repousada. Esta servia como divisória para a disposição do corpo, objetos pessoais e animais também. Depois disso, diversas camadas de pedras, terra, mais pedras, barro, argila, e finalmente grama eram despejados.

Vista da estrutura interna

O posicionamento do túmulo

O resultado são os diversos montes que vemos por todo o centro histórico. Até hoje ainda se investigam estes montes, que foram classificados pelos japoneses como algo menor.

Aliás, os japoneses, durante a ocupação entre 1910 e 1945, já haviam se deparado com alguns elementos encontrados por crianças retirados destas regiões. Eles chegaram a criar uma empresa para explorar o local, mas acabaram por não dar muita importância ao que ali havia, por sorte eles não entenderam do que se tratava e assim muita coisa foi preservada. 

Em vez de entrar diretamente no parque onde havia uma grande parte destas tumbas, fomos à principal rua de comércio na região turística. Essa rua é extensa, cheia de restaurantes e lojas de diversos tipos. Além dessa rua principal, há ruas secundárias que se espalham em torno dela, aumentando a área para exploração. Vimos lojas de soju, roupas, lembranças turísticas, artesanatos, artigos de meditação e até uma loja de um personagem de quadrinhos holandês que parece fazer muito sucesso aqui: Miffy.

As lojas na rua tinha todas esse aspecto

Depois de uma pequena volta nessa rua, voltamos para o parque com as tumbas para dar uma volta e ver mais de perto. O que mais impressiona é a dimensão de cada uma delas, e além disso, se pararmos para pensar, a ideia destas tumbas lembra muito as pirâmides egípcias, ambas sendo o local de repouso de governantes, construídas com esforço público e que serviam como monumentos. No caso destas tumbas aqui, uma cerimônia acontecia no evento representando o enterro.

Paisagismo na área em que ficavam as tumbas

Outra tumba importante

Seguindo mais adiante no centro histórico, avistamos a torre de observação astronômica, tida como a mais antiga na Ásia, ou pelo menos no extremo oriente. A torre em si não é muito impressionante como construção, o que mais impressiona é a vontade de observar o céu de maneira ordenada. O local onde a torre ficava era um descampado, onde perto havia campos de diversas flores, como lavanda, por exemplo.

A torre astronômica

A torre astronômica e seus arredores

Já com fome, resolvemos procurar algo para comer. Nossa primeira opção era muito longe de onde estávamos, então partimos para a segunda opção, um restaurante na vila Hanok. Por toda a Coréia do Sul há vilas Hanok, que é o estilo de construção tradicional deles, com telhados pontudos, telhas escuras e com arquitetura peculiar. 

O letreiro do restaurante de 300 anos de Gyochon

O nome do restaurante escolhido é "A 300 years restaurant of Gyochon". Algumas curiosidades, primeiro, tudo na Coréia que vem do inglês é traduzido com artigo definido, o que indica que essa deve ser uma característica da língua deles. O número de anos é uma alusão à história da família Choi, dona da mansão em que fica o restaurante e representante da tradição de generosidade, e, finalmente, Gyochon é a localidade onde fica a vila tradicional.

A casa que abrigava o restaurante

Experimentamos dois pratos feitos à moda de Gyeongju: bibimbap e bulgogi. O primeiro é um mexidão, mas que não chega à mesa misturado, você é que precisa misturar os ingredientes. Os elementos variam, mas em geral tem arroz, carne, vegetais, no caso aqui broto de feijão, cenoura, algas, dentre outras coisas. O segundo é um prato que consiste de fatias marinadas, levemente adocicadas, e grelhadas de carne. Mais uma vez a mesa vem recheada de entradinhas.

À esquerda, Bibimbap, ao centro, Bulgogi

Uma curiosidade é que na maior parte das mesas há essa gaveta com os talheres

Do restaurante fomos caminhando em direção ao Museu Nacional de Gyeongju, mas para isso, deveríamos atravessar o rio Mancheon através da linda ponte Woljeonggyo. Essa é uma ponte reconstruída, como muitas coisas na Coréia, toda de madeira e cheia de detalhes. Do outro lado ficava o museu.

A ponte Woljeonggyo

O Museu Nacional de Gyeongju tem porte médio, ele é composto por alguns edifícios, mas o edifício principal tem apenas um andar e formato quadrado. Dentro deles há a história de povoamento da região desde o período paleolítico, passando por instrumentos de pedra lascada, indo ao neolítico com instrumentos de pedra fundida, depois começamos a ver instrumentos de bronze, ferro e a evolução dos reinos na região.

Adagas de bronze e pedra polida

Vasos de cerâmica

Há diversos artefatos bem interessantes representando as diversas épocas e com diversas utilizações, como potes de cerâmica, espadas, coroas de ouro, elementos de ornamentação. Outro edifício tratava da religião budista e de sua chegada à Coréia.

Coroa de ouro e ornamentos

Ornamento de coroa

Chaleira com formato de animal

Ornamentos diversos

Depois da visita ao museu, nos encaminhamos para o Palácio Donggung onde ficava o lago artificial Wolji. No caminho vimos uma plantação que se repetia muito, de cor verde intensa, eram campos de arroz.

Campos de arroz

Como chegamos no final da tarde, pudemos ver o palácio de dia e também o acendimento das luzes e o efeito que elas causavam tanto nas construções quanto no lago artificial. Aqui, como em outros lugares, sempre notamos um relevo no piso e alguns círculos, que marcam locais de futuras construções. O governo da Coréia vem reconstruindo diversos palácios e monumentos pelo país. O que é mais interessante é que isso é feito com base nos projetos originais! Imaginem só, o governo dos diversos reinos sempre mantiveram registros de tudo o que acontecia e não é diferente com os projetos das construções pelo país inteiro.

Palácio Donggung e lago Wolji

Detalhe dentro do palácio Donggung

Dali buscamos uma cervejaria local onde provei uma IPA e uma porter. Antes de sentarmos, a Pri resolveu comprar uma batata doce frita. Qual não foi a nossa surpresa ao morder a primeira "batata" e perceber que o que quer que fosse, aquilo era borrachudo e com um gosto diferente de batata. Somente depois de pesquisar descobrimos que era lula preparada para ficar no formato de palito e depois frita com algum pó em volta para dar sabor.

A "batata" e uma cerveja

Ainda tínhamos de jantar antes de ir para o show da torre astronômica. A cidade de noite fica bem bonita já que várias partes da cidade são iluminadas.

Tumbas de noite

Torre de observação astronômica de noite

Após busca e deliberação, escolhemos comer no restaurante Hwangnam galbi, que servia como principal prato galbi. Este é um cozido de carne em caldo aromático. Como muitas vezes, quem finaliza o cozimento na mesa somos nós, ou, como somos turistas, quem o faz é um dos atendentes. 

As entradas que acompanhavam o galbi

Galbi de costela de boi

Esse prato era feito com costela de boi, como sempre, diversas outras coisas acompanhavam o prato, inclusive uma sopa de kimchi e tofu, famosa por aqui. Além disto tudo, pedimos também macarrão para acompanhar. Novamente pudemos ver o uso de tesoura para cortar a carne e um fogareiro para manter o calor e cozinhar o prato.

Já estava perto da hora do segundo show noturno, então voltamos para a torre de observação astronômica que tinha uma apresentação de luzes. Ela foi bonita, mas não acrescentou muito em termos de conhecimento. 

Destaque do show noturno

Outra projeção

O dia hoje foi muito cheio, mas teve muita coisa interessante por toda a cidade. Amanhã deve ser um pouco mais calmo.