terça-feira, 22 de setembro de 2026

O primeiro dia em Seul

Acordamos às 8 muito bem dispostos, como dormir numa cama faz diferença. Como houve uma série de mudanças nos voos devido a problemas com a empresa com a qual viajamos, chegamos um dia antes na Coréia do que o planejado. Decidimos fazer o primeiro dia de visitações planejado para Seul se acordássemos bem dispostos, como foi o caso.

Fomos caminhando para o primeiro ponto de visitação, que é o principal palácio da dinastia Joseon (lê-se Chossan. Mais sobre a diferença entre a grafia e os fonemas depois). No caminho encontramos uma loja vendendo pão com alho e recheios, escolhemos um.

Logo ao lado havia um café, também pegamos um. O pão tinha um sabor bem marcado de alho, eu gostei. A Pri, por outro lado, achou muito forte. Ainda encontramos o que chamam aqui de pão de sal. É o nosso pão francês, só que bem amanteigado e com sal grosso em cima.

Pão com alho e recheio

Depois de comermos isso chegamos ao palácio Gyongbokgung (lê-se Kion bok kung) e significa "O Palácio muito abençoado pelos céus, terminado de ser construído em 1395. Quanta presunção, sobretudo depois que aprendemos que o palácio foi destruído duas vezes pelos japoneses: uma na invasão de 1592-98 e outra no período colonial de 1910-45, isso depois da reconstrução geminada em 1867.

A entrada do Palácio Gyongbokgung

A entrada do Palácio Gyongbokgung

Chegamos em tempo de assistir à cerimônia de troca de guarda, uma encenação de como acontecia no século XV. Uma coisa que me chamou muito a atenção foi o uso de um instrumento de sopro cujo som lembrava muito uma gaita de fole escocesa. Além disso, fiquei pensando como estas cerimônias seriam sem instrumentos musicais, seria bem estranho, até mesmo bobo.

Troca de guarda

Depois de uma primeira volta, fizemos o passeio guiado de uma hora de duração. Visitamos diversos edifícios, dentre eles o principal edifício onde o rei trabalhava, os aposentos reais, os aposentos da rainha e por conta própria a biblioteca, já mais recente.

Pavilhão Gyeonghoeru

Nosso guia deu ótimas informações. A que mais chamou minha atenção foi a agenda do rei, que tinha três horários separados para o estudo de confucionismo. O guia falou que os estudos são uma das características mais marcantes dos coreanos. Logo pensei que em 1950 o PIB per capta da Coréia era o mesmo que o do Brasil, atualmente os níveis deles são bem maiores.

Além disso, a agenda diária do rei começava às cinco da manhã e só terminava a meia-noite. Muitas vezes vemos esse padrão se repetir com monarcas. Como os presidentes numa república podem se desviar tanto disso, não?

Outra coisa muito interessante é que a língua oficial de registro histórico dos acontecimentos era o mandarim. Os debates administrativos eram conduzidos em coreano, mas registrados por dois historiadores em mandarim. Estes registro eram vedados de leitura ao rei, isso para que os registros fossem fidedignos sem alterações ou edições.

Pavilhão Hyangwonjeong

Um detalhe que notamos nas edificações eram figuras que pareciam todas irem em direção a um monge, isso, acreditava-se, trazia sorte. Segundo nosso guia estas figuras representam a jornada de um monge ao oeste para chegar ao local de origem do budismo.

A representação da peregrinação. Quanto maior o número de imagens, mais importante o edifício.

Saímos pelo leste e chegamos a um parque que tinham duas áreas com reproduções de casas de dois períodos. Um do século XIX, com casas com cobertura de palha e outra representando os anos 1980.

Dali fomos a um bairro com casas no estilo tradicional chamado Hanok. No caminho vimos uma loja da Kodak, aqui na Coréia a marca foi licenciada e vende roupa. Não resistimos e entramos, é pura nostalgia! Ainda me lembro dos filmes de fotos e das revelações que vinham num envelope bem bonito. 

Resgataram a marca Kodak

Já no bairro, comemos num quiosque a comida rápida tradicional: tebbokki, salsicha de arroz e gyoza. Depois tomamos um sorvete de matcha e fomos andando para uma loja de produtos de beleza chamada Olive Young. 

A venda, ...

... a mercadoria,

... e a vista!

Após a primeira rodada de compras de produto de beleza, visitamos o templo budista Jogyesa. Dali fomos à praça Gwanghwamum, que fica de frente à entrada do Palácio Gyongbokgung, que visitamos de manhã. Esta parece ser a praça principal de Seul, nela ficam as estátuas do rei Sejong, que inventou o alfabeto coreano (hangul) e do almirante Yi Sun-Shin, que liderou diversas batalhas contra os japoneses durante a invasão de 1592-1598.

O rei Seojong

O almirante Yi Sun-Shin

Da praça ainda fomos visitar um riacho no meio da cidade, chamado Cheonggyecheong. A história desse riacho eu já havia escutado, há algum tempo o governo derrubou um viaduto e no espaço criou uma área de convivência bem tranquila. Como a área está abaixo da altura dos carros, é mais silenciosa, cada trecho tem alguma coisa diferente. Vimos muitas pessoas lendo em cadeiras especialmente lá dispostas, noutra área as crianças e adultos colocavam os pés na água e ainda em outro trecho vimos projeções de luz no riacho.

Um trecho do riacho com leitores

Passamos numa loja de departamento enorme para pegar uma espécie de cartão que podemos carregar com dinheiro para usar no transporte e em lojas de conveniência, depois visitamos algumas outras lojas. 

Outro trecho do riacho com projeções

Já estava de noite e eu queria ir a uma cervejaria que já havia pesquisado, chamada Euljiro Brewery, que tem um logo bem peculiar. Provei uma IPA, uma stout e uma sour. De lá fomos buscar algo para comer, encontramos uma porção de gyoza. As ruas e bares estavam lotados. Não encontramos nada que nos apetecesse e terminamos comendo algo rápido na loja de conveniência. Amanhã temos um voo cedo para a Ilha Jeju, no sul da península.

O bar ficava em um dos diversos becos

Um logo bem particular

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Indo para a Coréia do Sul

Depois de termos nos encantado com o Japão, e devido ao fascínio que a Pri tem desenvolvido pela cultura coreana, viemos passar as férias na Coréia do Sul. Enquanto a Pri acabou se interessando pelos dramas coreanos (k-drama) e até pela música popular coreana (k-pop), eu me interessei muito pela comida. O interesse que temos pela comida coreana é tanto que frequentamos um supermercado oriental e até um restaurante especializado na comida coreana em Haifa.

Nenhum voo saindo de Israel é tranquilo, e nesse teve confusão com a falta de capacidade do israelense em compreender uma gentileza. Até o fato de se tentar sair do seu lugar para dar passagem não é compreendido. Há quem diga que como houve um momento de extrema escassez, até hoje o israelense é egoísta. Na minha opinião isso é uma desculpa, do mesmo nível que usam o pouco tempo de existência do estado para justificar qualquer desordem. Sempre falo de Singapura, Hong Kong, e até a situação da Coréia do Sul.

Bom, antes esse tivesse sido nosso único percalço. Antes de embarcamos, fizemos o documento eletrônico de chegada, porém, descobrimos em Dubai, local de nossa escala, que brasileiros precisam de visto! Após alguns minutos de hesitação que pareceram horas, notamos que havíamos embarcado sem problemas em Israel, e, portanto, o passaporte israelense poderia ser usado. Foi assim que pudemos embarcar.

O voo saiu com uma hora de atraso, mas foi tranquilo. No aeroporto nos informamos e a melhor maneira de chegar ao hotel era de ônibus. Na fila vimos uma cena curiosa: um rapaz que havia comprado um ticket foi no guichê reclamar alguma coisa com a vendedora, ele foi se irritando e falando da maneira brava que vemos nos seriados, aumentando a entonação no final de cada frase.

Um senhor que estava sendo atendido deu uns tapinhas no rapaz para ele parar ou se controlar, não adiantou nada. Quando o rapaz saiu, esse senhor fez alguma piada e a atendente riu.

Palácio Gyeongbokung, o primeiro que vimos do ônibus

Pegamos o ônibus para chegar ao hotel, com ajuda da Pri que conseguiu nos embarcar no ônibus que já saía, ganhando assim meia hora de espera. O motorista, usando luvas e roupa social, sabia a parada de cada um dentro do ônibus. O hotel é simples, mas já paramos num bar aqui do lado e comemos numa loja de conveniência. Amanhã começa de fato.

Bar Bogle



quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Dia 21: O último dia de viagem

Último dia de viagem e tínhamos ainda algumas coisinhas para fazer. Como nossas malas ainda não estavam completamente fechadas, demos uma boa arrumada antes de sair de casa, isto nos atrasou um pouco a saída, mas era necessário para saber o espaço que tínhamos, bem como para deixar tudo esquematizado para o dia da viagem.


Começamos o dia indo visitar o Mercado Tsukiji (se pronuncia skidji). Há não muito tempo, aqui ficava o mercado de peixe de Tóquio, mas agora o mercado foi transferido para outro lugar, porém os restaurantes que já existiam pelo lugar continuam abertos. Havia muitos turistas por lá, as lojas que vendiam coisas não eram tão caras, os restaurantes é que tinham os preços "extremamente turísticos". Não ficamos muito tempo lá, mas como estávamos perto de Ginza, pudemos começar o dia olhando do que se tratava a área antes de partir para outros itens da programação.

O mercado Tsukiji

No caminho para Ginza se localizava o teatro Kabuki, eu já o havia visto, mas a Pri ainda não, então tomamos o caminho dele. Vimos que era possível visitar, mas que hoje a visitação não ocorreria. Pudemos, no entanto, visitar a lojinha deles, que tinham alguns itens interessantes. Novamente, notei que eles mantinham a calefação numa temperatura muito alta, não estava agradável. Isso é tema recorrente por aqui. 

Uma das ruelas do mercado Tsukiji

Depois fomos comer algo no Starbucks, pegamos um salgado e um doce em estilo italiano. Voltamos à papelaria Itoya e demos uma boa volta nela. Compramos alguns cartões e outros itens, tais como mini-bonzais de plástico que você mesmo monta. A loja hoje estava muito mais vazia do que quando visitei, no final de semana.  

Embaixo de linhas de trem sempre tem restaurantes

Já era hora de almoçar e escolhemos um restaurante de sushi de esteira. Fizemos a festa, pedimos vários tipos de sushi em nosso último almoço no Japão. Quanta coisa gostosa pudemos comer. A Pri ainda ganhou um brinde, um pratinho para colocar molho shoyu, algo que tentamos no primeiro dia e não conseguimos. 


Dali a Pri seguiu para visitar umas lojas que ela queria ver, tais como Shiseido, Issey Miyaki e eu fui tentar cortar o cabelo. Nessa volta ela encontrou (e comprou) as toalhas imabari, que são toalhas extremamente macias e com ótima reputação.

Combinado de atum

Algum peixe branco

Primeiro tentei numa barbearia ali perto de onde estávamos, mas achei muito moderna, eu queria algo mais tradicional. Então voltei para a região do hotel e fui atrás de uma barbearia que já havia pesquisado. Deixei algumas coisas no hotel e me encaminhei para a barbearia. Já do lado de fora notei que ficava numa casinha, com aquele tradicional sinal de barbeiro do lado de fora.

Godzilla e Toho, a companhia pelo qual vi os filmes de Kurosawa

Entrei, um senhor cortava o cabelo de outro senhor. Um silêncio sepulcral. Aguardei pacientemente até minha vez. Quando fui convidado a sentar, usei o tradutor para tentar comunicar ao barbeiro o que eu queria, um corte de cabelo e aparar a barba. Ele fez que entendeu. Perguntou se eu morava no Japão, falei que era apenas turismo. Ele perguntou para onde eu fui, citei todos os lugares.


Foi isso de conversa, ele se pôs a trabalhar. Primeiro, uma toalha quente na cabeça, em seguida o corte de cabelo que deve ter demorado pelo menos 20 minutos. Ele começou limpando a região em volta da orelha com uma navalha. Depois disso, ele abriu algo que parecia uma geladeira, mas na verdade era uma pia que vinha do móvel em frente à cadeira. De repente, na minha frente estava uma pia para lavar o cabelo.

Toalha quente na cabeça

Ele puxou uma mangueira e lavou meu cabelo. Tive de inclinar meu corpo para frente para que ele fizesse o trabalho. Ao voltar para a cadeira, como é tradicional no Japão, recebi uma massagem na cabeça. Estava pronto para a próxima etapa. O barbeiro pegou uma máquina e começou a desbastar a barba. Acho que ele não entendeu bem e ele não contornou a barba, mas tudo bem, eu já estava satisfeito. Levantei-me, ele buscou uma escova e limpou minha camisa. 

A cena de uma barbearia tradicional

Se há uma coisa que eu gosto de fazer em viagens é cortar o cabelo. É parte das coisas quotidianas que eu tento colocar em viagens para ver um pouco mais da vida local. Outra é visitar supermercados, ver que produtos há à disposição, o que se compra, o que se come.


Voltei para o hotel e esperei a Pri chegar, fomos comer um ramen como nossa última refeição antes da volta. Perto do nosso hotel tinha uma abundância enorme de restaurantes, escolhemos um que parecia ser bom e fomos nele mesmo. Foi uma boa escolha, além do ramen também pedimos gyoza e arroz frito. Todo restaurante de ramen a que fomos vendia gyoza, parece ser algo comum aqui. 

O último ramen

Amanhã é nosso voo, de manhã vamos para o aeroporto e é isso. O Japão me deixou uma impressão muito positiva. Nunca vi lugar tão limpo, organizado e silencioso. Eu achei incrível, a natureza do país também é muito bonita e a gente nem foi para os extremos, no norte, na prefeitura de Hokkaido, o inverno é muito intenso, no sul, na prefeitura de Okinawa, o clima é subtropical. Ambas devem ter paisagens incríveis e cultura distintas. 

Um brinde ao Japão

Há tanto o que se explorar no Japão que mais viagens são necessárias. Vamos ver o que o futuro nos reserva.

PS: Por algum motivo o avião voltou pelo Pólo Norte, atravessamos o estreito de Bering, depois fizemos a curva antes da Groenlândia e entramos no continente europeu pela Dinamarca. Para nossa surpresa, durante esse percurso, uma mensagem apareceu na tela dizendo que quem estivesse do lado esquerdo poderia ver a Aurora Boeral. Foi uma festa no avião, estávamos no lado esquerdo e pudemos ver as incríveis luzes verdes e de outras colorações. Foi uma bela surpresa que encerrou muito bem a viagem.

A rota pelo Pólo Norte

O Japão foi o país mais organizado, limpo e silencioso que eu já visitei. É completamente diferente de todos os lugares em que já estive, especialmente diferente dos lugares em que já morei. Deve haver problemas porque toda essa organização vem ao custo de uma coesão social que deve ter um outro lado como menos independência e respeito extremo à hierarquia. De todos os modos, é um exemplo em diversos aspectos para praticamente o mundo todo. Tem seus problemas históricos, mas isto é óbvio, continua sendo um país feito por seres humanos, que são falhos. 

A Aurora Boreal

Essa viagem vai ficar marcada, antes mesmo de ir embora já estava com vontade de visitar novamente. Há muitos lugares no mundo que ainda quero visitar, talvez uma próxima visita fique para mais adiante, mas a memória, essa fica.

Tristes por ir embora

Dia 20: Museu Nacional de Tóquio e algumas comprinhas

Hoje decidimos tomar café da manhã como um salaryman, ou seja, como um trabalhador assalariado japonês. Como comer fora aqui não é tão caro, há restaurantes para todas as refeições, inclusive café da manhã. 


O café da manhã tradicional japonês é bem diferente do que aquele que conhecemos no Brasil. Eles comem peixe, sopa e arroz de manhã. Queríamos ter essa experiência e fomos a um restaurante que servia este tipo de comida perto do nosso hotel. Primeiramente fizemos o pedido numa máquina, depois sentamos num lugar e esperamos pelo nosso número ser chamado. Buscamos nosso pedido no balcão e comemos. 

Café da manhã japonês

O nosso pedido contava com uma missoshiro, que é sopa de missô, salmão grelhado, um pote de arroz, um preparado de carne e cebola além de uma saladinha. Chá era gratuito, como também acontece nos restaurantes de sushi, além de água. 

No café da manhã

Notamos que o restaurante não estava lotado, mas que entravam e saíam pessoas com alguma frequência. Inclusive, a pessoa que entrou atrás da gente estava esperando para usar a mesma máquina que na qual estávamos fazendo o pedido, porque era a única que aceitava dinheiro. Pouco depois ele veio à nossa mesa nos entregar um dos tickets que havíamos esquecido de pegar. Ainda notamos que ele estava gravando um vídeo enquanto comia, já já o encontraremos no YouTube. 

O restaurante do café da manhã

Dali fomos para o Museu Nacional de Tóquio para ver um pouco do que se produz de arte no Japão e a história geral da arte no país. O museu era enorme e não fizemos nem a metade, visitamos apenas um dos diversos edifícios. Dentre os itens que vimos, havia caixas decoradas, kimonos, espadas e armaduras, bonecos de madeira, guardiões de templos, itens religiosos, biombos, papiros, tecidos e muitos mais.

Uma caixa cheia de detalhes

A minha mãe sempre gostou muito da estética oriental e, por isso, nossa casa tinha diversos destes objetos decorando a sala de estar. Por isto, tenho como referência diversos elementos que ao olharmos conectamos à China e Japão. Por exemplo, lembro-me nitidamente de um biombo pequeno com temática de árvores, leques em vasos, vasos pequenos de porcelanas ou ainda sábios chineses em porcelana. 


A nossa sala de estar era dividida em dois ambientes, cada um com uma mesa de centro e algumas mesas que eram postas ao lado dos sofás e cadeiras. Estas mesas centrais e laterais eram decoradas com caixinhas laqueadas, algumas com cadeados, outras que eram caixas de música, e ainda outras com alguns elementos em relevo. 


Lembro-me que havia um biombo com uma espécie de jardim 3D separado por duas placas de vidro, compondo uma paisagem. Conto isto para mostrar como estes elementos formaram minha percepção estética e como não vejo nenhum destes elementos como tão estranhos a mim.


O museu contava com objetos de literatura, como por exemplo, um papiro contendo O Conto de Genji, um trabalho clássico considerado o primeiro romance japonês, escrito por uma nobre chamada Murasaki Shikibu, no século XI. Outros papiros, lindamente decorados, eram contratos ou ainda outros contos épicos. O detalhe de cada um destes trabalhos era incrível, obviamente, não eram textos para a massa.

Uma ilustração de O conto de Genji, escrito por Murasaki Shikibu e
ilustrado por Kano Ryusetsu Hidenobu.

Também havia uma exposição grande de peças de kimono, que ao longo do tempo foi mudando e atendendo sempre a novas necessidades, desde ser uma peça de luxo para a nobreza, como para atender a necessidades mais mundanas. 

Um kimono formal, uchikake, do período Kamakura

Um estilo de arte que eu gosto muito é o Ukiyo-e, que é uma espécie de impressão feita a partir de placas de madeira esculpida. O artista cria painéis de madeira que em conjunto pode usar para imprimir em sequência uma cena, cada parte do painel recebe a aplicação de uma tinta que no final das contas é transferida para o meio em que o desenho será criado. 

A gravura Odai é parte da série
The Sixty-nine Stations of the Kisokaido
de Hiroshige Utagawa

Este estilo de arte se desenvolveu entre os séculos XVII e XIX. Um destes artistas que é bem conhecido é Hokusai, que criou uma série de quadros que engloba o famoso A grande onda de Kanagawa. Há outros artistas famosos como Utagawa Toyokuni que tem painéis famosos como Gueixas, Samurais dentre outros.

Na loja do museu, já na saída, havia diversos itens interessantes, mas um que me chamou a atenção em especial foi uma réplica de um par de quadros famosos representando os deuses do vento e do relâmpago e trovão. Esta figura me chamou a atenção pela incrível semelhança com o personagem Blanka, do título de vídeo game Street Fighter 2. 

Fujin, o deus do vento no shintoísmo

No jogo a história é que ele teria sofrido uma queda de avião na floresta amazônica e o contato com enguias elétricas teria gerado essa mutação. Porém, depois de visitar o Japão e ter contato com essa figura, não compro mais essa história. 


Depois de visitar o museu fomos comer um ramen, este com base de missô. Embora gostoso, ele fica um pouco enjoativo depois de tanto tomar o caldo. Dali pegamos um trem e fomos para o bairro de Yanaka Ginza, que não tem nada a ver com Ginza. 

Mais um ramen

A promessa era que Yanaka Ginza fosse ser um bairro charmoso que preservava ainda as características de Tóquio de antes da guerra. Além disso, contaria com diversas lojinhas legais e alguns restaurantes. Chegando lá, notamos que a área da visita é apenas uma rua com diversas lojas, embora de fato o local fosse charmoso, havia pouco para se fazer, algumas lojas estavam fechadas e aquelas abertas não tinham preços tão convidativos.

Chegando em Yazaka Ginza

Parecia um centro comercial exclusivo para turistas e com preços para turistas. Isso contrastava muito com o que em geral encontramos no país, mesmo em locais turísticos, os preços eram em geral razoáveis e não parecia haver lojas cujo alvo era apenas turistas. Claro que em Kyoto vimos isto por todos os lados, mas não foi a regra. Um outro ponto que trazia algum charme para o local é que havia diversas estátuas de gatos espalhadas pela rua.

Uma casinha em Yanaka Ginza

Depois de rodar as lojas, fomos para um outro tipo de mercado de rua, chamado de Ameyoko no bairro de Ueno. Neste lugar vendia-se de tudo, desde tênis até comida, lojas vendendo chá verde, salgadinhos, docinhos e até um supermercado chinês. Neste mercado encontramos um vinagre que estávamos buscando desde que o provamos em Kyoto, trata-se do vinagre preto Shanxi, que é do norte da China. Gostamos tanto que fomos atrás. 

Rua Umeoko, em Ueno

Essa região tinha tantas lojas quanto pessoas, tudo muito cheio e confuso. No meio desse caos todo havia um templo, como muitas vezes há no Japão. Há templos por todos os lados, e quando não são templos, há pequenas casas de veneração no meio da rua. Essa rua tinha mais cara de Uruguaiana do que a organização japonesa a que acabamos por nos acostumar. 


Encontramos uma loja vendendo produtos de chá verde, tomamos um sorvete de chá verde, como fizemos ao longo de toda nossa viagem. A Pri encontrou alguns chás para levar para o pai dela. Aliás, o pai da Pri é fascinado pelo Japão e conhece muito da cultura. Volta e meia ele nos fazia uma pergunta do tipo: já comeram tal coisa (um nome em japonês completamente específico)? Ou, tiveram a oportunidade de ver (outro nome japonês), que é o festival de tambores? Ele sabe muito da cultura japonesa! Impressionante que saiba tanto de outro país sem nunca ter posto o pé nele. 


Ainda havia mais um lugar que eu queria visitar neste dia, como era o penúltimo dia, eu queria fazer o máximo para liberar o último dia e ficar mais tranquilo. Fomos à rua Kappabashi, que é onde há as lojas que fornecem os produtos para os restaurantes japoneses. Mesmo com duas horas para caminhar pela rua, não conseguimos chegar nem perto de explorá-la como se devia fazê-lo. 


A rua contava com lojas vendendo todos os tipos de produtos. Produtos de cerâmicas, hashis, facas, copos, panelas, era tanta coisa que valeria a pena dedicar um dia inteiro (e uma mala inteira) para produtos gastronômicos. Eu, particularmente, ainda queria comprar uma tigela de sopa, um hashi e ver o que havia por lá. 


Depois de tomar cerveja em todos os lugares com o copo pequeno, que imagino comportar 150 ml, queria um desses para mim. A primeira coisa que fizemos foi visitar uma loja de itens de cerâmica, demos uma volta e, quando perguntei que horas fechava, nos programamos para dar uma volta na rua e voltar em tempo.


Entramos em diversas lojas atrás da tigela de sopa. Não achei nada que gostasse e que ainda lembrasse o Japão. Isto porque se há algo com cor de terra ou cinza, bem rústico, eu gosto, mas isto não lembra o Japão, é um item que pode ser comprado em qualquer lugar. Hashi eu queria um tipo específico, para comer macarrão. Como o macarrão é mais escorregadio, o hashi tem de ter a ponta áspera ou com ranhuras, para aumentar o atrito e não deixar o macarrão escorrer. 


A rua também contava com diversas lojas de facas, tive vontade de entrar em todas elas, mas sem tempo, acabei pulando todas. Finalmente a Pri encontrou a loja vendendo itens de vidro e lá comprei os copos de cerveja! Também entramos numa loja que vendia produtos relacionados ao preparo de café e compramos um moedor manual da marca japonesa Hario. Até termos espaço em casa, este passa a ser nosso moedor oficial.


Na volta para o metrô passamos na primeira loja que visitamos na região, comprei a tigela que eu havia gostado, feita no Japão e com desenho que remetia aos padrões que vimos durante a viagem, mas não tão detalhado e com itens japoneses quanto aquela que a Pri comprou na feira em Kyoto. Também compramos dois copos de chá bem bonitos.


Como tínhamos muitas coisas na mochila e em sacolas, decidimos voltar para o hotel para descarregar. Isto porque sabíamos que nos carregaríamos novamente. Nosso próximo objetivo era encontrar um mercado japonês perto do hotel. Indo para um mercado que encontrei no mapa, passamos por diversos restaurantes. 


Novamente, os restaurantes ficavam próximos à linha do trem. Isso parece servir a dois propósitos, primeiro é o aproveitamento de espaço, em Tóquio há tanta gente, há tanto público para comida, e falta tanto espaço que cada lugar é aproveitado. Além disso, perto das linhas e, especialmente estações, há sempre gente e isso é público.


No mercado compramos, wasabi, furikake, molho de soja, e até arroz! Contamos com a ajuda de um funcionário que falava bem inglês e acabamos perguntando um monte de coisas para ele. Notamos que o mercado também vendia comida pronta e que isso é algo cultural deles.


Estávamos com fome e fomos jantar, escolhemos outro Izakaya para comer. Escolhemos o bar que nos pareceu bom e pedimos para sentarmos em mesas, não havia mesas disponíveis, foi-nos oferecido o bar. Pedimos para esperar, mas ele falou que não ia ter como. Depois de algumas idas e vindas, aceitamos. Ele então diz que o pagamento só poderia ser feito em dinheiro, com a cabeça respondemos, ok. Ele emenda, dinheiro do Japão. Rimos e falamos, tudo bem.


Notamos que cada um destes restaurantes sempre tem alguma coisa diferente. Estávamos atrás dos espetinhos, mas provamos mais coisas, como por exemplo um bife de kobe ensopado, uma casquinha de siri que, surpreendentemente, estava recheada de macarrão. 

A entrada do izakaya

Pedimos novamente a salada de cenoura com batata doce frita, essa deve ser um clássico aqui. Pedimos uns espetinhos de carne e frango e alguns pratos fritos. Foi um belo fim de noite e um ótimo penúltimo jantar.

A incrível salada de cenoura e batata doce frita

domingo, 9 de novembro de 2025

Dia 19: Um dia de compras

Começamos o dia um pouco mais tarde, como tudo que queríamos fazer abria mais tarde, não havia motivo para sair de casa cedo, embora eu sempre queira sair cedo quando estou viajando e não consigo me controlar. Tomamos o café da manhã no próprio hotel, que tinha um café bem legal. 


Nosso primeiro destino foi uma loja de eletrônicos, mas que vende muito mais do que isso. O nome da loja é Yodobashi camera e vende muita coisa que eu queria comprar, por exemplo, canetas, lapiseiras, barbeador elétrico e até relógio. Fizemos excelentes compras na loja e fomos deixar as coisas no hotel, já que estávamos bem perto.  A Pri já comprou meu presente de aniversário do ano que vem, um relógio, mas ainda não o ganhei, só no aniversário!

Yodobashi camera

Em vez de seguir visitando outras lojas pela região, fomos para o outro lado da cidade para o curso que tínhamos marcado de Kintsugi. Essa é uma arte japonesa que serve como metáfora para a vida. Quando um objeto cerâmico quebra, temos duas opções diante de nós: comprar um novo item para repô-lo ou realizar um conserto para tornar o item especial.


Esta forma de arte é baseada na ideia de que reparar algo quebrado o torna mais forte e mais bonito. Este conceito casa com outro conceito japonês chamado de Wabi-sabi, que enxerga beleza na imperfeição, notando que tudo é imperfeito e nada é permanente. 


Antes de entrar no curso ainda encontramos um restaurante vendendo kurepan para viagem. Esse é uma espécie de pão recheado de curry, que não é originalmente japonês, e depois frito com panko para dar uma textura crocante. Pedimos dois sabores, carne e camarão. O pão é crocante e o recheio é saboroso.

O local que vendia o pão de curry

Entramos no local do curso, nos apresentamos, efetuamos o pagamento e pusemos as roupas de proteção para lidar com produtos químicos. O curso foi ministrado por um especialista no assunto que previamente trabalhou em outros ramos e nos disse que seu chamado na vida era a cerâmica. Imaginem um prato quebrado, o reparo que exercemos consistia nos seguintes passos.

O prato quebrado, lado que usamos para treinar

Primeiro, arredondar as bordas de onde o prato havia sido quebrado, criação de dois pontos que chamassem a atenção para quem quer que olhe para o prato, o primeiro ponto maior e o segundo menor. Segundo, junção das partes através da utilização de resina extraída de plantas. Terceiro, preenchimento do fundo do prato e das rachaduras com laquê tradicional japonês. Quarto, realce das rachaduras e dos pontos de atenção através da utilização de pó de ouro para embelezamento.


Começamos fazendo o reparo na parte inferior do prato para aprender a usar as técnicas e depois passamos para a parte de cima, que é mais visível. No total ficamos quase duas horas no curso. Gostei bastante de fazê-lo, mesmo que ele tenha sido uma versão bem curta do processo tradicional, já que usamos alguns produtos mais modernos. Esse parece ser um hobby bem interessante.

Mr. Taku Nakano

Quando o curso terminou, voltamos para a área em que estávamos pela manhã e visitamos uma região com lojas de artesanato. O local ficava debaixo de um viaduto e tinha algumas lojas interessantes, mas nada fora do comum. 

Mais um espaço aproveitado debaixo da linha de trem

Dali fomos visitar a loja Super Potato, que vende itens de videogame e jogos de cartas, mas não baralho, cartas de heróis ou universo fantástico. Eu fiquei interessado na parte de videogames, mas eu visito estas lojas muito mais como um museu do que como uma loja em si.

Super Famicom, para a gente, Super Nintendo

Ver consoles antigos, jogos antigos rodando e fitas me deixa feliz. Dentre os consoles vimos Atari 2800, Neo Geo, Famicom (que é o Nintendo de 8 bits versão japonesa), Super Nintendo, Super Famicom, Nintendo 64, Master System e Mega Drive. Vimos cartuchos para todos os consoles também. 


Depois fui procurar as lojas do tipo que deram a Akihabara o apelido de electric town. Antes de acertar nos levei para um prédio que só tinha coisa de animê, lotado e sem janelas, subimos e descemos sem encontrar nada do que eu queria ver. Frustrado, descemos o prédio e fui tentar encontrar o que eu queria ver. 

Nessa região havia uma exposição com os primeiros heróis japoneses, Ultraman

Quando finalmente encontramos, ficou óbvio que era isso que eu queria ver. Diversos componentes eletrônicos, lembrando a época do segundo grau em que íamos para o centro comprar material para nossos projetos. Também vimos vários itens de segunda mão, inclusive câmeras, rádios e tamagotchis. Para quem não lembra, houve uma época em que era febre cuidar de um dispositivo eletrônico pré-programado como se fosse um animal de estimação. Isso ainda é vendido no Japão, parece que houve um ressurgimento disto agora.

Uma galeria dedicada à eletrônica e a produtos de segunda mão

Detalhe interno

Depois de todo esse passeio resolvemos comer em um sushi preparado no balcão por um chefe. Escolhemos um restaurante na estação de trem Akihabara e tivemos uma surpresa ao chegar. O restaurante não tinha bancos, comíamos em pé! Cada lugar tinha seu próprio tablet e por ali podíamos pedir o que quiséssemos, o chefe recebia o pedido e preparava na nossa frente. Provamos várias coisas, gostei muito do atum e de alguns peixes brancos. Talvez esse tenha sido o sushi mais saboroso que tenhamos comido em nossa estadia. Tudo estava realmente bem gostoso.