quarta-feira, 21 de outubro de 2026

O segundo dia em Jeonju

Hoje pegamos um pouco da nossa manhã para arrumar nossas malas, e como gostamos do café que vimos ontem à noite, resolvemos tomar café por lá. Deixamos nossas malas num local de armazenamento da pousada e fomos caminhando para a rua em que havíamos estado ontem de noite. 

É curioso ver que uma rua pode ter duas identidades, uma quando de noite e outra quando de dia. Hoje vimos outras lojas abertas, algumas parecia até ser escritórios com vidros, o que nos permitia ver por dentro.

Café  Geumseongdang  de dia

O lugar de café ao qual me refiro era a loja que tinha na fachada um relógio enorme. O interior do lugar era bonito, havia até uma loja vendendo relógios e outros artigos. Tomamos um café cada um. 

Interior do café  Geumseongdang 

Depois voltamos para o centro histórico e, ao passar por uma loja vendendo o pão de sal, compramos dois, um para cada um. Esse pão de sal é uma espécie de croissant, sem recheio, mas muito gostoso.

Loja Yeomgokppang, onde compramos o pão de sal

Havia ainda alguns outros pontos para visitar pelo centro histórico e fomos visitar a escola confuciana. Se pudermos fazer um equivalente, a cultura chinesa é para o extremo oriente o que a cultura romana é para a Europa. De lá vinham muitas ideias e, por este motivo, havia aqui uma escola de pensamento confuciano.

A escola confuciana

O rei devia conhecer essa filosofia, mas também a elite que deveria servir de exemplo. Eram estudados os ensinamentos de Confúcio e seus discípulos, além de poesia e história. O local em si era muito bem organizado, as edificações posicionadas e dispostas de maneira ordenada. O local passava bastante tranquilidade, ficava perto de uma montanha, o que tornava tudo mais bonito.

Tentativa de pose na escola confuciana

Ainda havia um outro templo, chamado de Seungamsa, para visitar, seguimos o caminho à margem do rio, passamos por baixo de um elevado e finalmente chegamos ao templo, que parecia estar fechado. Dali era possível ver a estrada mais próxima, ficamos algum tempo por ali descansando até voltarmos ao centro.

Vista a partir do templo Seungamsa

No caminho havia uma vila (novamente, parece uma construção desordenada que foi melhorando) com diversos murais pintados. O nome da atração era Vila de Murais Jaman. Já chegando ao centro, havia o santuário Gyeonggijeon bem no que parecia ser o centro de toda a vila histórica. 

Túnel no caminho de volta para o centro

A entrada da Vila de Murais Jaman

Resolvemos entrar e, para nossa surpresa, hoje a entrada era gratuita. Assim que entramos e começamos a ler e entender do que se tratava, vimos que aquele era um santuário para hospedar, proteger e honrar o retrato oficial do rei Taejo, o fundador da dinastia Joseon. O lugar era enorme, construído para armazenar um retrato, pois dizia-se que o retrato era como se o próprio rei ali estivesse.

Santuário Gyeonggijeon

Foi por este motivo que havia uma exibição explicando como retratos eram pintados e, além disso, diversos retratos de diversos reis eram exibidos numa galeria. Havia bastante gente interessada no assunto, ou no ar-condicionado, já que fazia um calor enorme.

Réplica do retrato do rei Taejo

Depois de um bom tempo andando pelo complexo, buscamos um restaurante no nosso mapa e fomos comer sopa. Aqui nesta região do mundo as sopas são muito cotadas, há diversos tipos, esta aqui tinha como diferencial o macarrão cortado a mão, chamado kal-guksu, que significa exatamente isto, mão-macarrão. Pedimos uma sopa tradicional e gyoza recheada para acompanhar. O restaurante estava cheio de locais, então nos pareceu ser bem tradicional.

Kal-guksu tradicional

Ainda havia tempo até nosso trem, cogitamos ir para a estação tentar adiantar nossa passagem, mas preferimos passear mais pelo centro histórico. Dali fomos visitar o centro de cultura de leques, algo que é muito comum aqui no extremo Oriente. Havia uma pequena exibição de diversos leques, não somente coreanos, mas de outros lugares.

Leques de publicidade, de acordo com a descrição

Já este são leques japoneses

Além de vender leques, também havia cursos sendo oferecidos. Com mais tempo seria possível personalizar o próprio leque, bem como aprender as técnicas para construir um e como tratar os materiais que se utilizam para sua construção.

Depois dessa visita fomos tomar um sorvete no centro histórico, a Pri pediu um de matcha e eu pedi um de um sabor chamado Sobok, que era feito de arroz integral, soja e leite. O sabor era bem diferente do que estamos acostumados, até me lembrou os sorvetes malucos que tomamos no Japão, como por exemplo, de batata doce. Era bem diferente, mas não entrou no hall dos preferidos.

Voltamos para a região do hotel, entramos num café bem bonito que havia perto de lá, chamado Café 1938. A decoração era legal, para um museu. Assim que entramos estava tocando bossa nova, que a esta altura já é mais do que velha. Cada um pediu um tipo de café. Se aproximava a hora de ir para a estação e foi o que fizemos. Pegamos nossas malas e fomos para o ponto de ônibus. 

O café 1938

Detalhe da decoração e do que pedimos

Chegando em Seul, deixamos nossas malas no hotel, nos trocamos e fomos jantar. Novamente escolhemos frango frito. Fomos numa cadeia famosa por aqui, Kyochon 1991, e pedimos algo popular, frango com alho e mel. Na nossa opinião exageraram tanto no alho (cru) quanto no mel. 

Estamos na última parte da viagem, mas agora ainda temos uns bons dias ainda em Seul!

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

A ida para Jeonju

Acordamos cedo, mas nem tanto, já que havíamos mudado nossa passagem. Isso nos permitiu ir tranquilamente para o ponto pegar o ônibus que nos levaria à estação de trem. Ainda havia tempo e então tomamos o café da manhã na estação mesmo. Esse foi o maior deslocamento terrestre que fizemos, já que além de longo, tivemos de mudar de trem.

À espera do trem em Gyeonkju

Ao chegar na estação, em Jeonju (lê-se cheon-ju) tivemos de pegar um ônibus para ir para o centro histórico e no caminho vimos muitos senhores e senhoras, sentados na rua, vendendo produtos agrícolas. Como já comentei, uma coisa que acabou chamando minha atenção é que apesar dos números, ainda há pobreza na Coréia, não sei mensurar, mas ela é visível. Tanto na rua vimos gente mais velha vendendo produtos quanto nos mercados há senhoras vendendo comidas em tendas no meio dos corredores.

Aqui vemos algumas barraquinhas onde produtos são vendidos e o carrinho usado para transportar mercadorias

Nossa hospedagem foi numa vila Hanok, que ficava no centro da cidade. Finalmente seria nossa oportunidade de dormir numa casa como faziam os coreanos há não muito tempo atrás. As casas nessa vila eram lindas, os telhados pontudos típicos e muitas delas com jardim interno. 

Descansando no jardim da casa tradicional

A casa tradicional em que nos hospedamos, vista de fora

Estas pousadas têm uma administração moderna, o contato é sempre feito por internet, os gerentes dos estabelecimentos não ficam disponíveis in loco o tempo todo. Qualquer coisa deve ser feita pelos canais de comunicação que eles disponibilizam.

Algumas coisas nos chamaram atenção logo que tivemos acesso ao quarto. O primeiro era que o colchão, que era fino, ia direto no chão duro. Muito diferente da nossa expectativa, que foi setada a partir da nossa experiência no Ryokan que ficamos no Japão.

Segundo, o banheiro era novamente do tipo molhado, sem divisão alguma entre o local para tomar banho e o resto do banheiro. A porta era bem fininha e tanto som quanto luz entravam no quarto. Pelo lado positivo, o jardim era bonito e a casa era muito bem localizada.

Assim que deixamos nossas coisas fomos buscar um lugar para almoçar, e encontramos um restaurante que servia o bibimbap original, que foi inventado nessa cidade. Novamente, esse prato é uma espécie de mexidão que deve ser finalizado pelo cliente na mesa, ele vem com arroz, carne e vegetais, além de molhos para misturar. A casa em que ficava o restaurante também era bem bonita.

Detalhe do restaurante onde comemos, essa era uma área interna

Dois bibimbaps

Como o bibimbap vem, antes de o misturarmos

Nesse restaurante algo curioso aconteceu, depois que chegamos e pedimos, uma família composta por dois hippies e uma filha, suponho eu que franceses porque esse era o idioma que falavam, chegou. Por algum motivo o perfume natural axilar com notas lembrando o resultado de uma semana de cura sem sabão cortava pelo ar e chegava a mim, agredindo meu nariz. 

Por sorte, cinco minutos depois de sofrer com o miasma, o dono da fragrância pediu ao dono do estabelecimento para desligar o ventilador e minha penúria teve fim. Voltei a sentir o sabor do prato. 

Depois de sair do restaurante, revigorados por termos nos alimentados, e eu em especial por voltar a respirar tranquilamente, fomos em direção ao centro histórico. 

Caminhamos por ruas com aspecto mais moderno, vimos lojas vendendo caixinhas para guardar jóias decoradas com madre-pérola, diversos produtos de papel, como por exemplo leques, cúpulas de abajures, desenhos para enquadrar, etc... 

Caixinhas decoradas. Tenho lembranças da minha infância, já que minha mãe adorava este tipo de item e nossa casa era cheia deles

Fomos caminhando, nos afastando dessa área para visitar outros pontos que havíamos marcados no mapa, um deles era o portão Pungnammun, que se localiza no sul e é o único remanescente dos quatro portões originais. O portão atualmente fica numa rotatória e em volta dela há todo o tipo de comércio, além de um mercado de comida noturno, cujo funcionamento se dá nos finais de semana. 

O portão Pungnammun

Nessa região foi a primeira vez que notei um cheiro típico que comecei a sentir ao longo da viagem, era uma espécie de cheiro de chá, tanto doce quanto levemente ácido, tinha algo de canela, mas parecia uma mistura de outras coisas. Eu não consegui identificar o que era, cogitamos ser um chá medicinal ou o resultado da cocção de diversas coisas e este ser o resultado olfativo desta mistura de vapores.

Curiosamente, perto dali, havia a catedral da cidade, num estilo europeu que fazia parecer que aquilo não estava situado no lugar certo. Nessa cidade fica a maior vila tradicional Hanok da Coréia do Sul e toda loja e negócio no centro fica numa destas construções. 

Já estávamos andando há um bom tempo e havia outra padaria com docinhos tradicionais que queríamos visitar para provar as iguarias. Saímos um pouco da área para buscá-la. Novamente, em termos de doces, uma nova decepção. Os doces alardeados como sendo imperdíveis eram insossos, com ingredientes de baixa qualidade que não nos deixou feliz. Eu deixei minha parte depois de uma única mordida. Por sorte, em termos de cafeterias, a Coréia vai muito bem e encontramos um lugar bem legal para tomar o café da tarde.

Voltamos a caminhar em direção ao centro histórico, e, ao chegar nele, notamos que as ruas eram muito arrumadas, extremamente limpas, as calçadas ainda contavam com um pequeno córrego, pequenas árvores e outras plantas. Poucas vezes vi um centro histórico tão bonito e arrumado.

As ruas no centro histórico tinham muitas vezes este formato

Como os canais surgiam

Há todo o tipo de lojas nesta região, mas elas são, em sua grande maioria, para atender ao público de turistas. Notamos que essa cidade tem um centro histórico bem peculiar e a cidade ao redor é moderna. Aqui, a vila Hanok é tão grande, que ela se mescla com ruas e prédios mais modernos em diversos pontos, dando a impressão de que não sabemos onde começa ou termina a parte histórica.

Detalhe do canal correndo ao longo da rua

O muro do templo/complexo administrativo e uma rua no centro histórico

Havia um lugar legal dentro do centro histórico que ficava um pouco mais alto e que parecia ter uma boa vista para a vila, subimos já que era fim de tarde e aproveitamos para ver o pôr do sol desse ponto. Depois de o sol ter sumido, saímos pelo outro lado do monte para ainda visitar uma construção histórica em cima de uma ponte. Caminhamos pelo outro lado do rio Jeonjucheon.

A vila Hanok vista de cima

O sol se pondo atrás das montanhas, em primeiro plano, a vila Hanok

Já estava escuro e, como se tornou hábito nesta viagem, ao fim de um dia de andarilho, nada melhor do que uma cerveja. No caminho para a cervejaria que eu havia marcado no mapa, havia um conjunto de edifícios tradicionais aberto à visitação. Aproveitamos a oportunidade para ver do que se tratava. Era o complexo Jeolla Gamyeong, sede administrativa da região durante o reino da dinastia Joseon (cho-san). O lugar era enorme e visitamos diversas partes do enorme complexo. 

O complexo Jeolla Gamyeong ficava numa área enorme

Estávamos tão perto da cervejaria que fomos andando. Notamos que ela ficava numa rua com diversas lojas e restaurantes, pareceu ser uma região muito legal. Bem perto do destino, antes de chegarmos, notamos um prédio com um relógio enorme, parecia ser um café. Confirmamos e o mapa nos disse que de fato era um café. 

Café Geumseongdang, seu relógio visto a partir do portão de casa mal assombrada

Café Geumseongdang 

Finalmente entramos na cervejaria, que além de tudo era muito bonita por fora. Tomei algumas cervejas, a Pri comeu a pipoca que eles ofereciam de graça, além de também termos pedido outras coisas para tomar e comer. Logo que entrei notei uma coisa, o casal hippie de antes estava dentro do bar, resolvi manter a distância regulamentar para não ter de sofrer novamente.

Bela fachada, uma cervejaria de classe

Do outro lado da rua ficava a fábrica da cervejaria

Pri tomando uma ginger ale (refrigerante) e eu tomando uma ale (cerveja)

Na hora de escolher onde jantar, vi no mapa um restaurante de churrasco que estava muito bem avaliado. Embora fosse noite, resolvemos encarar o desafio. Fomos andando pela rua, vendo diversos restaurantes interessantes e, inclusive, passamos por uma rua com decoração chinesa, provavelmente onde ficavam restaurantes e lojas dessa comunidade. 

A seleção de cortes para escolhermos

O detalhe das carnes, cogumelo, pimenta e molho sendo devidamente cozinhados

Dá para ver no centro a folha de perila, que é usada para fazer os sanduíches que é como eles comem churrasco aqui

Que boa decisão ter escolhido este restaurante, além de atendimento exemplar, a comida estava muito boa. Pudemos escolher os cortes de carne que queríamos, pedimos também uma sopa de tofu com kimchi e eu ainda peguei uma cerveja diferente que ainda não havia tomado. Como de hábito, nos deram um avental para evitar que nos sujássemos e a carne foi assada por um dos garçons. Acho que eles conhecem os locais e não deixam o turista à sorte, evitando assim arruinar a comida e a reputação. 

Agora sim, o dia havia encerrado e podíamos voltar para casa com sensação de dever cumprido.

domingo, 18 de outubro de 2026

O segundo dia em Gyeongju

O plano para hoje era ir para o templo Bulguksa, que ficava um pouco afastado e devia ser alcançado de ônibus. Novamente, o ônibus estava cheio e demorava cerca de uma hora para chegar.

O templo é bonito, mas diferentemente do Japão em que há dois tipos de templos, aqui os templos sempre são budistas. Isso os torna uma música de uma nota só, o que acaba variando é a localização e algum detalhe. 

O principal complexo do templo

Em detalhe a entrada que estava fechada

O que parecia ser o pátio principal do complexo

De todos os modos, visitamos o templo e foi lá que provei um suco de leite com ginseng. Vou falar que eu gostei muito, o ginseng deixa um gosto ardente na garganta. 

Detalhe da porta

O pátio principal visto de ângulo com vantagem

Voltamos para a cidade e buscamos um restaurante que servisse Ssam-bap. O nome do restaurante era Jeong-rok Ssam-bap, em alusão ao seu prato principal. Basicamente, esse prato é basicamente folhas que são usadas para embrulhar diversos recheios, por isso, novamente, recebemos muitos pratinhos com comidas distintas. Dessa vez havia muita coisa e comemos bastante.

Ssam-bap, a variedade de recheios era enorme

Depois de terminar, como estávamos perto das tumbas, demos outra volta por lá, andamos novamente pelos campos floridos e chegamos à vila Hanok, caminhamos e passeamos até escolhermos um café para sentar e tomar algo.

Campo de lavanda, além de bonito, tinha um aroma gostoso

No quintal da casa em que ficava o café

Dentro do café, ou dentro de uma casa em estilo Hanok

Uma coisa que notamos aqui é que, como no Japão, a imagem é importante e muitos negócios anunciam o que vendem de maneira visual. Mas aqui, em geral, é uma televisão que exibe os produtos. Vi pratos sendo preparados, gente dirigindo kart, artesãos trabalhando em suas criações. 

Como já estava de noite, demos uma volta pela ponte, que fica incrível com a iluminação noturna. Passeamos um pouco pela ponte, fomos para o centro da cidade e fizemos um jantar leve, gyoza.

A ponte Woljeonggyo

Detalhe da entrada da ponte Woljeonggyo

A ponte Woljeonggyo, foto tirada do meio do rio

Voltamos para o hotel e fomos comprar alguns utensílios domésticos, dentre eles compramos pinças com garras na ponta, grades para descansar carne pronta e tesouras para cortar alimentos.

Uma tumba com efeito de luz, à noite

Gyoza, ou mandu em coreano

Ontem havíamos notado que o horário de viagem para Jeonju era muito cedo, seis da manhã, e isso nos faria acordar muito cedo nos dando quase que dois dias inteiros nessa cidade. Depois de verificarmos onde ficava a estação de trem e o que havia para visitar em Jeonju concluímos que era cedo demais sem motivo.

Decidimos que poderíamos comprar outra passagem e pedir o reembolso da original. Foi isso o que fizemos, conseguimos realizar a operação e agora já estávamos tranquilos pela mudança. Com a tranquilidade de quem não precisaria acordar excessivamente cedo, fomos dormir.