sábado, 31 de outubro de 2026

Último dia em Seul

Hoje foi o último dia de viagem, mas como o voo só era bem de noite, ainda dava para fazer muita coisa. Começamos o dia, como de costume, na vila Hanok. Desta vez escolhemos um lugar que vendia tudo quanto é tipo de croissant. Escolhemos os nossos, também pegamos café para começar o dia.

Uma bela seleção de croissants

Eis as nossas escolhas

A visão de onde sentamos dentro do café

Aqui a nossa ordem tradicional mudou um pouco, em vez de começar a passear, voltamos para o hotel para terminar de arrumar as malas e tomar um banho antes de fazer o checkout. Ficaríamos um bom tempo até ter acesso a chuveiro novamente, então postergamos o que pudemos o último banho.

Estávamos preparados para o dia, como já estava perto da hora do almoço, fomos finalmente buscar a sopa de frango com ginseng. Entramos no restaurante Songam Onbam que, novamente, tinha uma arquitetura bem interessante. Fizemos o pedido, além deste prato de sopa de frango que vinha com ginseng, jujube e feijão mungo. A Pri pediu um macarrão de trigo sarraceno bem interessante com óleo de perilla. 

Preparando-nos para o almoço

A mesa posta

A sopa estava gostosa, vinha acompanhada de jujube, que é uma fruta vermelha que tem outros nomes, como tâmara chinesa. É dela que vem o nome da nossa jujuba, já que o doce tem o formato bem parecido. 

A vista dentro do interior do restaurante, onde havia uma parte aberta

Agora sim podíamos começar o dia propriamente dito, voltamos à região de Insadong, que vendia elementos típicos da cultura coreana. A Pri avistou um senhor vendendo leques tradicionais, e ainda por cima ele escrevia o nome da pessoa no alfabeto coreano no tecido do leque. Porém, ele não aceitava cartão. 

A gente então foi visitar a loja/museu de facas. O senhor da loja era o próprio ferreiro (ou mestre ferreiro, como gostam de falar na Ásia), a loja contava com inúmeros artigos e lâminas, inclusive um expositor mostrava todas as fases de como transformar o metal em instrumentos e armas. 

As fases da confecção de lâminas

Vimos um casal mais velho comprando uma faca, pedi permissão e comecei a conversar com eles. Eram americanos e o cara comprou uma faca, já me animei porque vi que havia coisas à venda. Olhei um pouco a exposição e então pedi para ver as facas, com a ajuda da Pri escolhi uma delas, que estava bem bonita, e indiquei para ele a unidade que queria.

Ele pegou a faca, me mostrou, depois mostrou como afiar e foi embrulhar no jornal, para acomodar sem problemas na mala. Fiquei bastante feliz em comprar uma faca também na Coréia. Agora tenho três facas feitas na Ásia, se visitarmos a China, voltarei de lá também com alguma coisa.

Depois de sair da loja, resolvemos procurar um supermercado para comprar algumas coisas para trazer de volta. Algumas coisas nos chamaram atenção no mercado, a primeira foi a variedade de algas que eles tem, havia algumas prateleiras dedicadas aos diversos tipos. Cogumelos também eram bastante variados, havia muita coisa diferente. Escolher uma pasta de soja também nos causou dificuldade, novamente por conta da variedade.

A seleção de cogumelos

Difícil escolha de pasta de soja

A variedade de algas

Além disso, uma coisa que a gente queria comprar era o pó de soja torrada, que é usado tanto para temperar carne, por exemplo, como nós usamos a farofa, tanto quanto para temperar algo que vai ao fogo. Também procuramos um óleo de perila, que é algo bem típico daqui. Compramos os produtos que estavam em nossa lista e voltamos para ver o senhor vendendo leques.

Ao chegar na rua principal de Insadong, sentindo novamente aquele cheiro diferente de mistura no ar, nos animamos a tomar algo. Subimos num bar/restaurante no segundo andar de um edifício, com uma bela vista para a rua e escolhemos dois tipos de chá. Eu escolhi um feito com cinco variedades de ervas e a Pri escolheu um de jujube. Ambos estavam bons, porém muito doce. 

O bar em que tomamos chás

A Pri fez algo que eu nunca teria coragem de fazer, quando pagou, ela pediu para a atendente cobrar mais e devolver o troco em dinheiro para que ela pudesse comprar o leque com o senhor que os vendia na rua. Eu teria ido tentar achar um caixa automático, mas a Pri conseguiu com que a mulher fizesse o que ela queria. 

Com dinheiro vivo, descemos e fomos direto ao senhor vendendo leques. Depois de escolher um pouco, a Pri decidiu o que queria, mostrou o nome dela para o senhor, que escreveu em hangul primeiro num papel e depois, com uma habilidade tremenda, escreveu com o pincel no leque. Agora estávamos ambos felizes, cada um de posse de um souvenir para utilizar no dia-a-dia.

Ainda tínhamos algum tempo, então fomos visitar o Museu das guerras da Coréia. Demoramos um pouco para chegar, mas de metrô até que foi fácil. Porém, chegando lá o museu estava fechado, o que ocorre aqui é que se um feriado cai no dia em que o museu deveria fechar, eles abrem o museu e adiam o fechamento. Isso acabou caindo no dia de hoje. Mesmo assim, pudemos ver diversos equipamentos que se encontravam do lado de fora. Curiosamente, muitas pinturas nos aviões e tanques lembravam muito a minha coleção de Comandos em Ação (G.I. Joe).

Na parte externa do museu da Guerra havia uma exposição de equipamentos

Tanque com pinturas de brinquedos que eu já tive

Voltamos para a região do hotel, mas antes fiz questão de parar na loja que vendia pão de alho (Garlic Boy) que havíamos comido no primeiro dia. Eu gostei tanto que resolvi comer mais um antes de ir. De lá fomos em direção ao hotel, mas ainda  tínhamos antes de buscar dinheiro vivo para poder pagar o ônibus. Como na Coréia não se pode recarregar o cartão de transporte pagando com cartão de crédito, tivemos de sacar dinheiro.

Ficamos um tempo batendo cabeça até encontrar um caixa automático, fomos a uma loja de conveniência e fizemos a recarga. Lá a Pri me mostrou um caixa automático dentro da loja, ela já havia visto no YouTube, mas por medo, eu saí correndo atrás de um banco. 

Além disso, depois de realizarmos a recarga, ela ainda falou que nem era necessário, já que podíamos pagar em espécie no ônibus. Às vezes, é pensar num momento de pressão antes de sair tentando resolver um problema. 

Finalmente fomos buscar nossas malas no hotel, andamos até o ponto de ônibus e pegamos mais de uma hora de transporte até chegar ao aeroporto. 

Novamente o Garlic Boy

No aeroporto ainda comemos algumas coisas na loja de conveniência e já tomamos um chá de realidade ao notar que as lojas fechavam bem cedo, completamente diferente do aeroporto pelo qual viemos na ida. Amanhã estaremos em Roma, há pouco tempo e muito que se fazer.

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

O sexto dia em Seul

Alguns dias atrás recebi por e-mail um aviso de que nosso segundo voo havia sido cancelado e que eu deveria entrar em contato com a empresa aérea para verificar alternativas. No mesmo momento verifiquei algumas passagens e vi que ainda havia como chegar na Europa, porém não fizemos nada naquele momento. Sabíamos que tínhamos de lidar com essa questão, mas com a programação tão intensa, acabamos postergando a solução em um ou dois dias.

Hoje tínhamos uma visita ao jardim secreto do palácio Changdeokgung, um dos cinco palácios em Seul. Antes, no entanto, tínhamos de tomar café da manhã, e mais uma vez fomos buscar algo na região da vila Hanok que ficava próxima ao hotel. Desta vez encontramos um café muito bem decorado que servia pão de sal também. Vários destes estabelecimentos nesta região tem a arquitetura bem diferente, este tinha um moinho de água, outro tinha um trilho de trem, e num outro ainda, entrávamos e íamos andando num caminho que só nos permitia avançar, nunca voltar. 

Um dos restaurantes na Vila Hanok contava com um trilho como decoração

Não demoramos muito no café e como estávamos relativamente perto, fomos andando o percurso todo até chegarmos ao palácio. Tendo chegado um pouco antes, pudemos visitar parte dele antes do início de nosso passeio. Dentre os locais visitados neste momento, havia um recinto que havia sido aberto há não muito tempo, eram os aposentos de estudos do príncipe. Como de costume pela Ásia, a mesa de estudos era baixa, já que as pessoas sentavam no chão. Essa parte do palácio era bem bonita, tinha dois andares e era agradável ficar sentado à beira da janela, já que corria um ventinho muito gostoso.

O edifício no qual ficava o quarto de estudos

O quarto de estudos do príncipe

Quando chegou o horário do passeio, fomos para a fila que já estava enorme. Resolvemos fazer o passeio com a guia, que nos contou um pouco da história do local e de cada uma das paradas que fizemos ao longo do percurso.

Nossa primeira parada foi num lago artificial (Buyonji), cujo formato quadrado representava a terra, enquanto que a ilha redonda ao centro representava o céu. Numa colina bem próxima ao lago ficava a biblioteca real, onde o rei estudava com outras pessoas. O portão que dava acesso à biblioteca tinha três partes distintas, a porta central, exclusiva de uso do rei, e as portas laterais. Ele era chamado de portão água-peixes, um simbolismo para harmonia, já que essa devia refletir a conexão entre o rei e seus oficiais.

O lago artificial Buyonji, com sua ilha central, o pavilhão de literatura à esquerda e a biblioteca à direita

Perto do lago havia uma pavilhão que tinha o formato de flor de lótus. Lá o rei promovia encontros literários, muitas vezes em forma de jogos. O rei poderia começar recitando um poema e então os seus convidados oficiais deveriam terminá-la. Quem não completasse a tarefa a contento era isolado temporariamente na ilha central.

Passamos por um segundo lago onde paramos para ter mais explicações sobre o jardim. Um rei admirava muito as flores de lótus que desabrochavam ali, já que as flores eram lindas, mesmo brotando de águas turvas e lamacentas. Seguindo este lago, passamos por uma área onde havia dois pavilhões. Um com dois telhados que tinha o formato de um coreto, em seu teto havia uma estrutura geométrica hexagonal muito detalhada. Um pouco mais adiante se encontrava o segundo pavilhão, este no formato de um leque. Gostamos tanto que tiramos algumas fotos em ambos.

O lago e as lótus

O pavilhão com telhado duplo

Detalhe geométrico dentro do pavilhão com telhado duplo

O pavilhão em formato de leque

O próximo lugar por onde passeamos foi a residência da família real dentro do jardim. A entrada do lugar era bem simples e aparentemente essa foi uma escolha deliberada de um rei que queria se sentir mais como seus súditos. Dentre as coisas mais curiosas desta residência, destaco a biblioteca pessoal da família real, que além de ter o telhado protegido por telhas retas e verdes, também tinha protetores móveis contra o sol, para impedir que raios de sol atingissem os livros diretamente. Além disso, lembro-me de uma curiosidade: havia entradas separadas para homens e mulheres, e, como as mulheres deviam servir os convidados do rei sem se dirigir a ele, a técnica utilizada para saber o número de convidados era contar o número de calçados no lado de fora da entrada. Isso me pareceu um exagero de protocolo e formalidade.

Demos duas voltas neste jardim, a primeira acompanhada da guia, mas com tanta gente que era difícil tirar fotos sem ninguém. A segunda volta foi bem mais tranquila, pudemos revisitar todos os lugares que gostamos calmamente. E como o jardim não era tão grande, o passeio nem tomou muito mais tempo.

Enquanto íamos para a saída, aproveitamos para visitar ainda outras partes do palácio que ainda não havíamos visto, dentre elas uma construção que tinha telhas reluzentes verdes, bem diferente das demais que eram sempre pretas.

O detalhe de telhas verdes

Dentro de um edifício havia a famosa pintura que já havia visto no muro em Insadong

Bem próximo à saída havia a lojinha de souvenirs do palácio, quando chegamos vimos um par de xícaras lindas, resolvemos comprá-las e agora, na volta, efetuamos de fato a compra. Elas tem as cores azul e vermelho, em formato geométrico, ambas com detalhes em dourado.

As canecas que compramos

Saímos dali e fomos buscar algo para almoçar. Já faz alguns dias que estou procurando uma sopa de frango com ginseng, eu vi o anúncio deste prato na vila Hanok, então voltamos para lá para procurar a sopa. Eu já havia tentado encontrar o restaurante no dia anterior sem sucesso. Desta vez conseguimos encontrá-lo, mas decidimos por comer churrasco. Escolhemos um restaurante que usava uma chapa para a cocção dos alimentos, recebemos o auxílio de uma garçonete e escolhemos também comer uma peça de carne bovina além do corte de porco.

Churrasco não tem erro, o almoço estava gostoso, ainda pedimos um arroz com queijo e kimchi que acompanhou a comida, além de alho e do famoso cogumelo gigante. Tudo devidamente cozinhado na chapa, como deve ser neste tipo de restaurante.

O churrasco de tudo

Quando terminamos o almoço, ali mesmo no restaurante, ligamos para a companhia aérea e tentamos buscar uma solução para o nosso problema, as opções dadas não pareciam promissoras. As mais próximas em data iam para longe, como Roma, por exemplo, as mais próximas geograficamente, como Chipre ou Grécia, nos exigiriam ficar mais uma semana fora antes de voltamos. Ambas eram ruins. Pagamos a conta e fomos para um café tentar resolver a situação. 

Acho que ficamos entre três e quatro horas dedicados à resolução do problema, a solução pela qual optamos foi voltar por Roma, passar uma noite na cidade para pegar o voo na manhã do dia seguinte. Isso permitiria à Pri chegar em tempo para um evento pré-casamento da irmã, sem sacrificar uma longa estadia no aeroporto. Isso também nos permitiria sair de Seul, que é um lugar difícil de encontrar hotel a preços razoáveis e já nos levaria para mais perto do nosso fuso-horário.

Terminados os trâmites de troca de passagens, reserva de passagem independente desde Roma e escolha de hotel para o pernoite, ainda tínhamos um objetivo a cumprir, um que havia sido iniciado no dia de nossa chegada à Coréia. No primeiro dia visitamos uma cervejaria chamada Euljiro Brewery, a Pri, conversando com a atendente do bar, descobriu que havia um desafio, se coletássemos quatro carimbos numa espécie de cartão postal, poderíamos ganhar uma tulipa de vidro com a marca deles. Para isso seria necessário visitar quatro filiais espalhadas pela cidade, duas eram muito próximas e numa região bastante central, as demais eram mais longe.

Caminhamos até a primeira cervejaria, para isso fomos a uma região na qual já havíamos estado, perto da feira em que comemos frutos do mar frito. Ali entramos numa casa Hanok e tomamos uma cerveja. A casa era bem diferente das demais, sentamos numa espécie de bancada, ao estilo oriental, com uma almofada no lugar de cada assento e uma mesa ligeiramente acima do nível de onde sentávamos. O atendente carimbou nossos cartões postais e agora faltava apenas um. 

No primeiro bar da noite da Euljiro

Agradecemos e fomos andando para a última cervejaria. No caminho passamos pelo principal palácio de Seul, Gyeongbokgung, onde pudemos escutar um show que acontecia dentro dele. 

A entrada do palácio Gyeongbokgung

Depois passamos pela principal praça da cidade, Gwanghwamun. Como hoje também foi um feriado, havia muitos shows pela cidade, particularmente, numa parte desta praça principal havia um show intimista acontecendo. A música era tradicional, mas tocada tanto com instrumentos modernos quanto tradicionais. Ficamos ali alguns bons minutos, já que a mistura parecia muito boa. Essa banda inovou bastante e os números variavam de ritmo e estilo. 

Uma música do grupo

Outra música do grupo

Caminhamos um pouco mais e finalmente chegamos na última loja da cervejaria. Lá tomamos ainda outra cerveja, uma ginger ale, pegamos os carimbos finais, ganhamos as tulipas e ainda tiramos fotos felizes da vida. Mais uma conta de mídia social na Coréia na qual vamos aparecer.

No último bar da Euljiro

Uma cerveja e um ginger ale

Tentamos novamente comer frango frito numa loja que havíamos visto no nosso caminho de manhã, dessa vez não era uma cadeia, mas uma loja familiar. O frango estava longe de se parecer com as outras cadeias, mas não estava de todo ruim. Amanhã é nosso último dia em Seul, temos de aproveitar para fechar tudo que não fizemos ainda.

No caminho para o hotel vimos este portão

Aquele rio rebaixado que vimos em outros momentos

O jantar no restaurante familiar


terça-feira, 27 de outubro de 2026

O quinto dia em Seul

Que gostoso acordar às quatro da manhã, nas férias, para acompanhar um ritual de reza matinal de monges! Assim que acordamos, logo tivemos de descer para nos encontrar com o nosso coordenador. Este era o coordenador que já havia começado a nos acompanhar ontem no final da tarde, foi ele quem nos orientou na meditação e quem já havia tentado preparar chá (numa tentativa frustrada na qual acabamos tomando várias xícaras de água quente com leve sabor de chá) no dia anterior para a gente.

Fomos andando para o templo, entramos pelo canto e ficamos em lugares reservados, à esquerda, próximo à parte da frente. Os monges já estavam rezando com fervor, e não estavam sós. Havia muitos devotos acordados e realizando o ritual de se curvar no chão a cada orientação do monge que conduzia os trabalhos. 

O local das preces matinais

Eu achava que rezar às 6:40 da manhã na escola era muito cedo, agora já estou achando que era tarde. Assistimos à reza talvez por trinta ou quarenta minutos. Saímos de lá e voltamos ao salão. Os monges e outros fiéis continuaram por lá rezando. 

A próxima atividade programada (ou exercício matinal) seria realizar cento e oito prostrações, ou seja, cento e oito movimentos de se curvar e agradecer ao que tínhamos na vida. O mais interessante não era o movimento extenuante, que deixei de lado, já que fiquei sentado enquanto um coordenador entusiasmado guiava os demais visitantes, e sim o texto que traduzia cada uma das preces. Havia muita coisa interessante e cada frase merecia ser analisada sob o prisma filosófico.

Depois desse exercício, fomos tomar o café da manhã, que se parecia muito com o jantar, e que eu aposto, deve ser igual ao almoço. O budismo prega, dentre outras coisas, uma vida comedida, sem grandes emoções e a alimentação deles reflete isso. Há uma proibição de uso de ervas e temperos "pungentes": alho, cebola, alho-poró, cebolinha e outra que eu nunca ouvi falar, chamada asa-fétida. Essa proibição segue essa ideia. Além de outras crenças como os potenciais problemas que tais ervas podem trazer. É uma espécie de comida vegana com mais restrições ainda, que entusiasmante, êêê.

Café da manhã, almoço ou janta?

Depois do café da manhã tivemos tempo livre até a atividade seguinte. Aproveitamos e fomos à entrada do templo, vimos o templo de fora, já havia muita gente esperando que a lojinha de itens que ficava logo na entrada abrisse. A Pri queria ver o que se vendia na lojinha, por isso estávamos por lá. Não demorou muito, a lojinha abriu e logo encheu de gente. As pessoas chegam a toda hora no templo, inclusive de madrugada. De manhã não foi diferente, elas entraram na loja, compraram itens de devoção e oferendas, e seguiram sua manhã religiosa.

A cozinha antiga era assim, não sabia que com uma cozinha moderna à disposição ainda a utilizavam

Nós encontramos com o nosso coordenador que perguntou se não queríamos dar uma volta pela floresta do templo. Demos uma bela volta por toda a mata que ficava na colina que circundava as principais edificações do complexo, mas ainda dentro da área do templo. Era um caminho que muitas pessoas utilizam com o intuito de fazer exercício, havia até algumas senhoras fazendo o percurso.

Terminada a volta, fomos procurar um café porque a Pri gosta de tomar café pela manhã. Primeiro fomos a uma loja dentro do templo que estava por abrir. Ao entrar, ela notou que só chá era vendido. Seguimos passeando um pouco mais pelo templo, vendo algumas construções e nos deparamos com uma loja temporária, bem perto do prédio em que estávamos hospedados. Havia café, porém, só aceitavam dinheiro e não tínhamos espécie. O café teria de ficar para mais tarde.

A última atividade que constava na agenda durante nossa estadia seria uma conversa com um monge, ou melhor, iríamos tomar chá com o monge e ainda conversar com ele. Essa foi uma conversa curiosa, porque o grupo era bastante heterogêneo, a começar pelo monge. A primeira pergunta que fizeram não foi respondida diretamente, o monge começou a brincar com a menina que havia feito a pergunta sobre como ajudar um amigo que estava sem propósito na vida. No final ele disse que era muito difícil ajudar uma pessoa sem conhecê-la.

Depois foi a vez da Pri de perguntar. De acordo com ele, a pergunta havia sido muito pessoal: "O que levou o monge a ser um monge?" E a resposta que ele deu foi surpreendente. Em resumo, os pais dele brigavam muito em casa e ele não era um estudante exemplar, a vida no templo foi uma solução perfeita para sair de casa sem ter de passar necessidade. Acho que isso já quebrou completamente o gelo, já que todos esperavam uma decisão bem ponderada após uma reflexão sobre o mundo, o estado das coisas na modernidade, ou qualquer coisa nesse sentido.

Como o monge já havia classificado essa pergunta como muito íntima, ele disse que não nos conhecia tão bem e com isso pediu que nos apresentássemos. Foi isso o que fizemos. A Pri ainda fez uma segunda pergunta, como era o dia a dia dele. 

Eu que havia pensado em fazer a mesma pergunta que a Pri, tive de pensar em outra coisa. Perguntei o motivo pelo qual uma religião estrangeira, como o budismo, se estabeleceu e se espalhou na Coréia. Ele disse que culturalmente é fácil para um coreano aceitar uma divindade de origem nobre, diferentemente de outras religiões em que a divindade vem das camadas populares. Além disso, ele também citou outros fatores culturais que se alinhavam.

Entre os visitantes havia uma chinesa que parecia mais interessada em ensinar coisas do que em aprender, uma latino-americana que estava lá somente para acompanhar uma amiga e um holandês que buscava respostas existenciais tendo sido encorajado pela mãe a fazer essa viagem de auto-descobrimento.

As respostas do monge eram tão corriqueiras e prolixas que eu imediatamente me senti como numa conversa de bar, porém, tomando chá. Foi uma experiência para lá de diferente, já que a expectativa que eu tinha era alguém que havia lido bastante filosofia e conseguiria traçar comentários elevados sobre os mais diversos temas mundanos e espirituais. Foi uma quebra de expectativa e tanto, que me fez lembrar que no final das contas, todos somos seres humanos, até os mais estudados são capazes de falar coisas simples, sem importância e que isso acontece em todos os cantos do mundo com todo o tipo de gente. 

Aliás, é fenômeno conhecido com os ganhadores do prêmio Nobel. Em áreas do conhecimento que não são do seu estudo, dão opiniões completamente absurdas, erradas e sem cabimento. Ou seja, é possível você ser extremamente conhecedor e competente numa área e ser completamente ignorante, até mais do que pessoas sem  nenhuma formação acadêmica. Pode ser que isso reforce minha ojeriza à autoridade e aos títulos como classificadores de opiniões. Eu gosto de ver os fatos e de discutir tópicos. Nunca generalidades, nunca abstrações.

Finda essa conversa, voltamos ao quarto para nos arrumar, trocar de roupa, devolver a roupa de cama e seguir nossa viagem. Voltamos à civilização e nosso primeiro ato foi tomar um café. 

Depois de degustarmos um café e um doce, tomamos um ônibus de volta ao nosso hotel, pegamos nossas malas, fomos para o outro hotel, fizemos o check-in, deixamos as malas, nos arrumamos e fomos para a região de Seongsu. 

Essa é uma região que outrora abrigava diversas fábricas e foi uma das últimas a mudarem de propósito. Ainda é possível ver os diversos galpões, agora convertidos em lojas de marca, cafés e restaurantes. As ruas ficam abarrotadas de gente, como era final de semana, tivemos a impressão que famílias percorriam a região como atividade de passeio. 

Essa loja de tênis tinha uma entrada um pouco diferente

Esse nem era o trecho mais cheio de gente. A rua não estava fechada para o trânsito e de vez em quando um carro ou moto passavam pelo meio da turba

A gente visitou diversas lojas, fomos à loja da Miffy, que é um personagem holandês de quadrinhos, bem cotado por aqui. A loja era legal, não compramos nada. Entramos em outras lojas, cujas fachadas eram bem interessantes. Com o espaço disponível, a criatividade tinha como ser ousada e havia coisas bem diferentes. Visitamos uma loja de produtos de cabelo que se parecia com um grande banheiro. Havia uma parte que era a ducha e outra que era a banheira.

Já essa loja reproduzia um banheiro

Uma entrada antiga ainda intocada

Depois buscamos um outro café, chamado de Onion. O lugar era enorme, composto por diversos espaços divididos, que antigamente deviam ser estações de trabalho. A decoração era bem rústica, mas o que chamava a atenção eram os cafés incríveis e uma seleção acima da média de doces e salgados. A gente apenas tomou café, mas também comprou um café torrado deles para trazer. 

Fachada do café Onion

E seu interior

Soda, café, Pri e Dani

Havia ainda um prato da culinária sino-coreano que nos faltava provar, era o Jjajamyeon, que é um macarrão com um molho espesso à base de soja preta fermentada. Encontramos este prato num restaurante perto do café, aproveitamos e pedimos porco frito, que eram os dois carros chefe da casa. Aliás, eram tão famosos no restaurante que contavam com a versão inteira e a versão meio a meio. A comida estava boa, um pouco doce até, mas novamente, esse não é um prato espetacular.

Jjajamyeon e porco frito com molho

Caminhamos mais por uma outra seção do bairro, a Pri avistou uma loja de artigos de escrita, e como ela sabe que eu adoro este tipo de coisa, insistiu para que ficássemos na fila para visitar a loja. Eram três andares de diversos materiais, variando de canetas tinteiro a cartões de aniversário. Os artigos vendidos na loja me interessavam muito, são as coisas que eu adoro ver, mas não faço questão de comprar. Como não encontrei nenhuma caneta ou lapiseira que tivesse gostado, saí de mãos abanando. Já a Pri encontrou uns cartões que acabou comprando.

Venda de artigos de papel

Itens interessantes de ver, mas não de ter

Este bairro era muito grande e ficava perto de um parque igualmente grande. Resolvemos caminhar em direção ao parque para ver como os coreanos se divertiam em dias livres. 

Ainda assim, no caminho havia muitas lojas, embora elas começassem a ficar menores, contudo, ainda mantendo bastante personalidade. Paramos numa loja para comer um doce com recheio de maçã, a Pri trocou algumas palavras com um coreano que nos havia perguntado se o doce estava bom. Ele ficou contando a história para a família e amigos dele, pelo menos é isso que imaginamos já que ele repetia a frase em inglês que a Pri havia utilizado para classificar a torta de maçã.

Um chafariz no meio do parque/floresta

A vista para edifícios enormes

O parque estava lotado, porém, tudo era bem organizado, o público ordeiro e o elevado número de pessoas não parecia causar o caos que esperaríamos de um lugar com tanta gente. Já era o final da tarde e ainda havia mais o que fazer, Seul tem muitas atividades. Então, saíamos do parque para pegar um ônibus, para então depois pegar um trem que nos levaria a uma região próxima ao rio Han. Daquele ponto, caminharíamos até chegar a um parque colado à ponte em que ocorreria um show de água. A ponte no qual o show ocorreria estava fechada e havia barraquinhas de comida por grande parte de sua extensão. 

Acho que boa parte da população da cidade teve essa mesma ideia e resolveu fazer o mesmo programa. Para chegar ao parque do lado da ponte, tentamos ir pelo lado da rua em que o metrô havia nos deixado, mas havia tanta gente que o caminho se estreitou quando chegamos a uma ponte prévia que levava ao local em que queríamos chegar.

Resolvemos voltar, atravessar a rua e ir pelo outro lado. O fluxo estava menor neste lado da rua, mas quando nos aproximamos do parque, era necessário pegar uma escada para chegar ao nível dele, que era mais baixo do que o nível em que estávamos. Aí pegamos uma fila de muitas pessoas, mas pelo menos essa fila andava.

O show de água

Aqui, visto a partir da ponte

Finalmente chegamos no parque que estava lotado, famílias estavam com toalhas de piquenique estendidas por todos os lados, a pequena arquibancada estava tomada por gente. Por sorte encontramos um espaço para sentar. Já acomodado notei uma coisa curiosa, os coreanos tiravam os sapatos para pisarem nas toalhas, assim como fazem em casa. 

O magnífico show de mangueiras, ops, de jatos d'água

Esperamos por volta de quarenta minutos para o início do show. Quando o show começou, nenhuma música era conhecida e uns canhões de água jorravam-na no rio Han. Em pouco mais de dez minutos de show saímos, passamos pela ponte na direção oposta pela qual chegamos, não conseguimos comer nada por conta das filas, mas pelo menos pudemos ver o show desde a ponte. 

Algumas construções iluminadas na região da ponte

A saída do show não foi menos demorada. Caminhamos outros trinta minutos para tentar pegar um ônibus longe da multidão. Não encontramos ônibus algum, as primeiras gotas que anunciavam uma chuva começaram a cair. Decidimos chamar um taxi pelo aplicativo, enquanto procurávamos um lugar com boa referência, avistamos uma loja de conveniência, decidimos comprar alguns quitutes, chamamos o táxi pelo aplicativo e fomos para uma loja de cadeia de frango fritos.

Desenhos como esse adornavam a ponte em alguns trechos

A loja escolhida ficava perto do nosso hotel, e foi esse o motivo da escolha da localização do restaurante. O caminho estava livre, o que muito nos animou. Essa cadeia de restaurantes se chamava BHC. Pedimos um primeiro frango que veio num pó que lembrava o tempero de Doritos. Não era bom, muito artificial. Depois pedimos outro frango, esse sim melhor. Mas por incrível que pareça, o melhor frango até o momento foi o que comemos em Busan, no restaurante que parecia um filme do Tarantino.

Frango frito envolto em pó de Doritos

Frango frito realmente crocante

Saímos do restaurante e ainda chovia, entramos na rua principal e passamos por um bar subterrâneo que tocava Oh My Love do John Lennon, fiquei gravando o som por esta saída e a Pri correu para se abrigar na entrada de um prédio. Ao chegar e trocar algumas palavras com ela, o senhor que estava ao lado dela começou a conversar conosco em português! Era um brasileiro de traços orientais que morava em Seul. Essas coincidências da vida.

A música saindo do sub-solo

Corremos pelas ruas molhadas, nos abrigando da chuva quando possível, até chegar ao nosso hotel. Mais um dia lotado.