sábado, 8 de novembro de 2025

Dia 16: Museu Memorial da Paz, Himeji e chegada à Osaka

Começamos nossa manhã com uma visita ao Museu Memorial da Paz em Hiroshima, para chegar lá tomamos um bondinho. Aliás, desde ontem a noite tivemos uma ótima impressão da cidade, por ter sido reconstruída recentemente, ela tem um ar bem moderno, as ruas são enormes, há muita coisa nova e o sistema de transporte com bondinhos é bem legal.

Hiroshima tem ares de cidade americana

O museu, como não podia deixar de ser, tem um conteúdo bem pesado. Ele aborda o ataque atômico em si, as consequências imediatas do caos que se instalou logo após o bombardeio, as sequelas das pessoas que estavam lá na hora do ataque, bem como a série de eventos que ocorreram como consequência direta do ataque. Além disso, há diversas seções explicando desde o funcionamento da bomba até a escolha de Hiroshima como alvo.

O horário em que a bomba atômica foi detonada

Estava lotado, sequer havia guias de áudio para que pudéssemos escutar com mais detalhes. Como o conteúdo foi tão pesado, talvez tenha sido melhor nem ter pego o guia. 

O Hall da Promoção Industrial, depois e antes

Para não entrar em muitos detalhes pesados, tristes e chocantes, duas coisas me chamaram a atenção. A primeira foi que ocorreu uma chuva tóxica de uma substância negra viscosa. Muita gente estava desesperada por água e acabou bebendo isto. A outra foi que muita gente achava que os sobreviventes estavam fingindo ter problemas e indisposição, houve um preconceito enorme, mesmo dentro do Japão, contra os sobreviventes.

Uma informação que eu já havia escutado, mas que recentemente revi, foi a de que, por mais contra-intuitivo que pareça, os ataques com bomba atômica reduziram o número de mortos do lado do Japão. A professor Sarah Paine argumenta neste vídeo que o número de pessoas morrendo de fome estava aumentando significativamente e que o término antecipado da guerra poupou a vida de muita gente, na casa dos milhares. 

Além disto, há um outro fato, a desonra é algo muito sério na cultura japonesa, e é melhor perder a vida numa batalha do que voltar para casa como um soldado fracassado (referência). Para reforçar o ponto, vi um vídeo (não encontrei a referência) em que um americano explicava que eles matavam um grupamento quase que inteiro de soldados e os últimos se recusavam à rendição e se matavam. Há também a famosa a história de um soldado que só se rendeu em 1974, e, curiosamente, foi morar no Brasil em 1975.

Depois que terminamos a visita, passeamos pelo parque no qual fica o museu e vimos novamente, agora de dia, o Domo A. Este edifício era o Hall da Promoção Industrial e a bomba explodiu a uma altitude de 600 metros acima do nível do mar e a 150 metros do domo. O ataque ocorreu no dia 6 de Agosto de 1945, às 8:15 da manhã. 


O Hall da Promoção Industrial

Uma outra dúvida que eu tinha era o motivo de Hiroshima ter sido escolhida. Havia diversos critérios para a escolha, os americanos formaram um comitê para isso. A cidade devia ser um alvo militar, suficientemente concentrada em um pequeno raio, preferencialmente se localizar entre montanhas para potencializar o efeito da bomba. Havia diversas cidades candidatas e Hiroshima foi escolhida dentre elas. 

O monumento às vítimas e o Hall da Promoção Industrial ao fundo

Eu não sabia, mas Hiroshima era um centro militar importante, um hub logístico de onde muitos ataques pela Ásia tiveram origem. A cidade era relativamente grande, mas não enorme, e era rodeada por montanhas. Eu sempre imagino o que teria sido se outro alvo fosse escolhido. Essa era a lista de alvos: Kyoto, Hiroshima, Yokohama, Kokura, and Niigata (fonte).


Pegamos o trem para Himeji depois de pegar nossas malas no hotel, que como havia dito, era perto da própria estação. A viagem durou menos de uma hora, e como esta é uma parada conhecida por este lado do Japão, a estação de trem tinha lockers suficientes para os diversos turistas que fazem esse passeio de um dia (ou menos) na cidade de Himeji.


O grande atrativo da cidade é um castelo espetacular, construído unicamente com madeira e contando com sete andares. A Pri viu um cara com uma placa de guia que falava inglês e resolvemos passear com ele. Foi uma ótima decisão porque aprendemos bastante sobre o castelo.

O castelo de Himeji

Das coisas que ele me falou, algumas me chamaram muito a atenção. Primeiro, o carpinteiro mestre sabia a planta inteira de cabeça, como o castelo era um ativo estratégico e sigiloso, não havia plantas para sua construção. Segundo, o castelo tinha essa altura porque havia duas colunas que eram na verdade troncos enormes de árvores. E terceiro, o castelo demorou apenas oito anos para ser construído entre 1601 e 1609, em sua última encarnação. Uma reforma recente demorou oito anos usando maquinário moderno.

O castelo de Himeji de outro ângulo

Como citei anteriormente, o carpinteiro mestre tinha todo o projeto na cabeça. Para facilitar a vida dos obreiros algum método de identificação das partes era necessário, então, o carpinteiro mestre indicava que elemento de madeira devia ser encaixado através de inscrições nas partes. Vimos, em diversas toras de madeira indicações sobre o local onde ela deveria ser posta e no que ela encaixava e o que construía. Até hoje as indicações são visíveis.

O interior do castelo

Fora a incrível beleza, todos os mecanismos de defesa e os detalhes, o que mais me impressionou foi o fato de o castelo ser um edifício de sete andares todo de madeira. Isso é algo impressionante. Que se possa construir algo tão alto apenas de madeira sempre vai me deixar surpreendido, até embasbacado.

O fim do dia trouxe cores mais alaranjadas

Nosso passeio foi muito legal, vimos muita coisa do castelo e nosso guia, Yoshihiro (se me lembro bem o nome), nos ensinou muito sobre o castelo e o período em que o castelo foi construído. Uma coisa que aprendemos foi que a torre principal era usada para armazenar armamentos e ninguém morava nela. A residência do daymio era numa casa perto do castelo, protegida pelos muros, mas não na torre principal do castelo.

Mais uma visão do lindo castelo

No final da visita, ainda no castelo, havia dados mais técnicos, tanto sobre o castelo quanto sobre a última reforma. E, dentre elementos expostos, havia uma maquete construída recentemente quando se deu a reforma que mencionei anteriormente. Só de olhar a maquete dá para ter ideia de como foi um trabalho hercúleo construir o castelo.

A maquete do castelo de Himeji

De Himeji pegamos um trem e fomos para Osaka. Chegamos já de noite, e este hotel foi o com pior localização que escolhemos na viagem inteira. Pensamos que a área seria boa para ficar, porque era perto de bastante coisa, mas acabou que ficamos numa área muito movimentada de noite. 

A entrada de Dotonbori, uma região cheia de restaurantes

O hotel também tinha a janela virada para um beco entre a parede de dois edifícios e era bloqueada por uma parede recuada para dentro do beco, a luz entrava por frestas. Deixamos nossas coisas e fomos andar pela rua, numa região chamada Dotonbori.

Por algum motivo, o painel do homem correndo é famoso

O lugar tinha muitos restaurantes e era frequentado por muita gente mesmo. Estava incomodamente cheio. Uma coisa que achamos interessante foi que os letreiros dos restaurantes eram muito elaborados, alguns com animação mecânica, outros em alto relevo. Isso é algo bem diferente no Japão, o visual conta muito na cultura, especialmente em restaurantes. Letreiros, cardápio, moldes de comida, tudo te mostra o que é o estabelecimento e como são os pratos.

O restaurante com letreiro mecânico

Outra coisa muito comum aqui é que o sistema de pedidos é muitas vezes feito através do telefone celular, você abre uma página que te conecta a uma mesa, faz o pedido e em algumas ocasiões, até fecha a conta e te permite realizar o pagamento.

Dotonbori, rio, e roda-gigange

Bom, primeiro comemos um salgado típico de Osaka que é uma massa que tem um pedaço de polvo dentro. Foi a segunda vez que comemos isso e definitivamente não é dos nossos proferidos. Depois tentamos pela segunda vez comer Omurice, que é um arroz com omelete no topo. Novamente, insistimos em algo que não é lá muito gostoso. Por sorte pedimos também um frango frito, este sim estava bom.

Rio Tombori

A região onde ficam estes restaurantes tem diversas ruas cobertas com lojas e restaurantes dentro e, além disso, um rio passa no meio. É possível passear pelas margens do rio e até andar de barco. Achamos a cidade bem mais suja que todos os outros lugares em que estivemos. Fomos dormir depois deste longo dia de viagens e visitas, exploraremos a cidade no dia seguinte.


sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Dia 15: Hiroshima e Miyajima

O trem entre Kyoto e Hiroshima ocupou a primeira parte da manhã. A Pri conseguiu finalmente pegar o trem com decoração da Hello Kitty, não foi trem bala, mas serviu. Até o banheiro tinha Hello Kitty como tema. Antes de embarcar, a Pri notou que uma loja famosa de cheese cake estava vazia, conclusão, compramos uma e a comemos inteira no caminho. 


Chegamos à estação de Hiroshima e nosso hotel era muito perto, deixamos as malas e voltamos para a estação principal, já que de lá era mais fácil ir até a barca que nos levaria à ilha de Itsukushima, onde fica a vila de Miyajima. 


A ilha se localiza bem perto de Hiroshima, praticamente em frente, e é muito conhecida pelo famoso torii dentro do mar. Quando pegamos a barca, já avistamos o monumento desde o barco. Assim que chegamos, o que fizemos foi caminhar em direção ao templo onde ficava este portão. 

O torii flutuante

O templo ao qual pertence este torii fica bem próximo a ele, e tal como o torii, também parece flutuar quando a maré está alta. Veremos no fim da tarde o outro lado da moeda.

Templo de Itsukushima

Tal como vimos em Nara, nesta ilha também há veados que te cumprimentam pedindo comida. Aliás, vimos durante o dia algumas cenas de turistas tendo sido abordados de maneira mais ríspida para a obtenção de comida. Chegamos, no fim do dia, a ver uma mulher levantar o sorvete e o veado ficar em duas patas, com as dianteiras apoiadas na turista, para comer o sorvete dela.


Uma das iguarias famosas da ilha são as ostras cozidas, embora este não fosse o modo de preparo único das ostras. Primeiro comemos uma que vinha em cima de uma bolinha de arroz. Como já era perto do meio dia, a Pri sugeriu que fizéssemos a parte mais dependente de horário do passeio logo. Isto é, pegar um teleférico para subir boa parte do monte Misen. 


No caminho para o terminal inicial do teleférico, ainda pegamos uma ostra grelhada que estava excelente. A Pri ficou fascinada pela ostra e queria planejar comer mais um quitute deste antes de voltarmos para Hiroshima. Cada um comeu duas ostras com diversos molhos. O local ainda tinha algumas lojinhas de souvenir e passava por um rio, com pontes no estilo japonês, tudo muito bonito.


O ponto final do bondinho nos deixava a meia hora de caminhada do topo. Como o dia estava quente, isso foi muito bem vindo. Além disso, subir o monte todo desde a base até o cume demoraria mais do que o tempo que tínhamos disponível. Havia uma fila relativamente grande para pegar o teleférico, mas não tomou nem uma hora. Havia uma parada intermediária para trocar de linha, com uma fila bem menor. O primeiro trecho que fizemos tinha um bondinho comportando de seis a oito pessoas, o segundo trecho tinha um bondinho que comportava até trinta pessoas.


Vista parcial a partir do mirante

Assim que chegamos no ponto final, havia um mirante, que fomos conferir. Depois partimos para a caminhada de meia hora por trilha, algumas partes com piso rígido, outro com pedras e areia. O caminho subia e descia e não era constante. Ao longo do trecho inicial havia muita natureza e algumas aberturas para vistas espetaculares. 

Vimos um japonês com roupa social, completamente empapado em suor e com cara de sofrimento voltando da trilha. Também vimos algumas outras pessoas esbaforidas. O dia estava quente, embora no meio da mata, com a proteção da copa das árvores estivesse bem fresco. Mas isso não foi suficiente para impedir que eu transpirasse, afinal, era exercício. 

Hiroshima ao fundo

Havia diversos templos e construções no caminho, numa delas havia até uma panela com água quente para que os peregrinos tomassem. Não conseguimos visitar todos os templos construídos, já que muitos ficavam fora da trilha principal, mas vimos num mapa que havia muito coisa que poderíamos ter escolhido visitar.

Um dos templos que encontramos subindo o monte Misen

Sobre as vistas, e inclusive a que tivemos no topo do monte, algumas eram em direção de Hiroshima, e também era possível ver outras ilhas salpicadas pela região. No topo havia uma estrutura bem construída que nos permitiu ter uma visão excelente dos arredores, tomamos vantagem do ponto mais alto para dar uma boa olhada em tudo ao redor.

Vista do monte Misen

Dali começamos o caminho de volta que significava voltar os trinta minutos de caminhada, depois pegar dois teleféricos e caminhar dez minutos entre o ponto inicial e o centrinho da vila. Na volta, o restaurante que vendia ostras grelhadas já estava fechado, uma pena, a Pri estava torcendo para que o restaurante ainda estivesse aberto. Sem ostras disponíveis, pegamos um espetinho de polvo na barraquinha em frente.

Vista dese o templo de Itsukushima

Eu passei na cervejaria de Miyajima para pegar uma cervejinha. Logo depois entramos no templo Itsukushima, em que ficava o torii no mar. Aliás, é interessante que quando chegamos a maré estava alta e o torii parecia estar no meio da água, mas quando a maré baixou, notamos que se podia acessar o torii caminhando pela areia. 

Quando a maré baixa, pode-se ver o templo em terra

Muitas pessoas vão para o lado do torii tirar fotos

O templo é bem legal porque ele fica em cima da água, embora possa ser acessado também quando a maré baixa. Depois dessa visita, caminhamos um pouco mais pelo centro, para sorte da Pri, uma outra loja estava aberta e vendendo ostras! Aproveitamos para pegar mais uma antes de voltar, dali ainda visitamos o centro de informação turística para tentar pegar um selo. Ainda deu tempo de tomar mais uma cervejinha na mesma cervejaria. A barca estava por chegar e chegamos em tempo para voltar para Hiroshima. 

Uma visão noturna do Torii

Queríamos provar um prato famoso de Hiroshima, chamado de Okonomiyaki. Ele é uma espécie de panqueca gigante cujos ingredientes variam, aliás, o nome já diz isso: okonomi em japonês significa algo como “o que você quiser” e yaki significa grelhado. A versão de Hiroshima que comemos tinha macarrão como base, repolho e broto de feijão em abundância como segunda camada de base, uma banda de panqueca e molho, fora ovo e carne de porco.

Okonomiyaki sendo preparado

O prato é feito numa grelha em nossa frente. O cozinheiro usa a chapa com este propósito, que tem duplo papel, além de panela também é mesa, já que as bordas de madeira servem a esse propósito. O restaurante é todo em torno da cozinha. 

Escolhemos nosso restaurante num andar de um prédio em que havia diversas opções, um restaurante do lado do outro. Imagine entrar num prédio em que um andar é todo dedicado a restaurantes de uma só especialidade. O andar nem era muito grande, mas estava cheio de turistas e locais, dividindo lado a lado o balcão, ou mesa, para se deliciar com quitutes.

Depois de todas essa propaganda, nosso veredito é de que a comida não era nada demais, mas como é característico de Hiroshima, tínhamos de provar. Pode ser que se tivéssemos escolhido uma versão mais gourmet, fosse mais ao nosso gosto, mas em geral, preferimos sempre provar a versão original antes de quaisquer pedidos mais arrojados.

Ainda não era tarde e resolvemos passear pela praça da paz para ver o Domo A, um dos edifícios que sobreviveram ao ataque atômico. A visão in loco de um edifício que eu já tinha visto tantas vezes em livros de história, torna o evento atômico mais paupável e mais próximo.

Hall da Promoção Industrial, atualmente conhecido como Domo da Bomba Atômica

Com o tempo restante da noite, fomos visitar o castelo de Hiroshima, como muitos castelos no Japão, este é uma reconstrução em concreto. Como as construções aqui eram majoritariamente de madeira, como já citei, diversos edifícios foram refeitos depois de terem sido destruídos por eventos naturais, fogo ou como resultado de sua destruição por guerra. 

Fica até difícil julgar até que ponto uma reconstrução é mais ou menos original do que a outra. Neste caso, a reconstrução se fez necessário porque a detonação da bomba atômica também atingiu o castelo. Mas pelo país, outras reconstruções se deram bem antes da era moderna e como resultado de guerras internas.

Portão externo do Castelo de Hiroshima

Amanhã começaremos o dia visitando o Museu Memorial da Paz, depois nos dirigiremos à Osaka, fazendo uma parada no meio do caminho para visitar o castelo de Himeji.

Torre principal do castelo de Hiroshima


Dia 14: Fushimi Inari, castelo Nijo e festivais

Hoje deixamos a parte da tarde e noite do dia mais livre, já que havia dois festivais que queríamos ver. Então, saímos cedo de casa para aproveitar mais o dia. Nosso destino era o templo Fushimi Inari, famoso por ter 1,000 portões torii. O templo fica mais ao sul de Kyoto e a estação de trem fica praticamente na porta do templo.

Entrada do templo Fushimi Inari

Na entrada destes templos há sempre muitos detalhes, além dos guardiões, este templo contava com um par de cachorros também guardando a entrada. 

Uma das estátuas de cachorro na entrada do templo

Sempre também há lanternas, sejam aquelas de pedra que se erigem a partir do chão ou as penduradas. Outra coisa que vemos com frequência são os detalhes, sejam em madeira ou em metal, normalmente dourado.

Uma lanterna pendurada

E mais umas lanterna de papel, com detalhe do cachorro ao fundo

A entrada do templo é bonita, e logo à direita ficam os primeiros toriis. A gente foi andando e teve a impressão de que não eram muitos. Impressão completamente errada. O templo fica numa montanha e há muitos, mas muitos toriis, formando caminhos para todos os lados. 


Caminho infindável de toriis


Algo que é bastante curioso é que estes toriis são em geral patrocinados por empresas, eles são ao mesmo tempo um pedido e uma oferenda. A gente tende a achar que o que está escrito seja algo mais teológico ou dizeres de sabedoria, mas são na verdade marcas de empresas. Outra curiosidade é que como estes portões são de madeira, eles precisam ser trocados a cada dez anos.


Descobrimos que havia um caminho para o topo da montanha e decidimos chegar lá. Vale notar que estes caminhos de toriis são realmente no meio da floresta, então vemos a integração entre religião e natureza, algo que já havíamos notado e que realmente me veio a mente de maneira clara na nossa visita a Shirakawa Go.


O dia estava nublado e a chuva vinha e ia, mas como eram muitos toriis, ficamos protegidos por eles, a chuva não era tanta a ponto de penetrar ou de nos molhar seriamente. Chegamos ao topo subindo por mais de uma hora, não havia nenhuma vista para a cidade neste ponto. Descemos em pouco menos de uma hora e fomos para o Palácio Imperial.


O corredor de toriis parecia não ter fim

Há um desfile chamado de Jidai Matsuri (em tradução, jidai significa era, matsuri significa festival, ou seja, festival das eras) no qual pessoas desfilam utilizando roupa das diversas eras do Japão. É interessante que a história do Japão seja dividida em eras da mesma forma que dividimos a história ocidental. Aqui me refiro às divisões ainda do estudo de história na escola. Ficamos assistindo ao início do desfile na saída do portão pelo qual vinham as pessoas.


Além de pessoas caracterizadas, também vimos animais

Foi bem legal ver as pessoas vestidas com roupas de época, há entre as eras diferenças. Notamos que mesmo com a mudança de época, alguns elementos de identidade visual são carregados uma época à outra, criando uma referência de elementos comuns e nos ajudando a identificar cada indumentária como sendo japonesa. Chama a atenção que tudo seja tão silencioso, até enfadonho, sobretudo para a gente que tem como referência procissões ou eventos culturais sempre acompanhados de música ou cânticos.


Detalhe da roupa de um dos participantes do desfile

O desfile seguiu pelas ruas de Kyoto, o que causava um contraste estranho, pessoas vestidas com roupas bem antigas desfilando em ruas com prédios e outros elementos modernos. Aliás, Kyoto foi salva a tempo, porque houve um boom de desenvolvimento imobiliário, mas alguém se tocou que uma cidade que fora capital do país por quase 1000 anos, deveria ser preservada, de preferência, sem perder nada de seu charme construído ao longo de séculos.

O contraste se torne evidente 

Isso ocorreu ao longo do caminho

Depois de ficarmos uns trinta minutos por lá fomos procurar um lugar para comer. Achamos um lugar de ramen que era promissor. Começando pelo fato de o pedido ser feito através de uma máquina, que emite um ticket físico, posteriormente ele é recolhido por um garçom. Escolhemos o ramen com caldo de missô e lagosta. Essa base foi uma das mais diferentes, e melhores, que já comemos aqui. O prato estava realmente incrível.

A máquina ...


... o ramen e nós!


Nossa visita seguiu pela mesma região, andamos até alcançar o Castelo Nijo, construído para ser a residência do shogun em Kyoto. O castelo é um complexo fortificado com dois palácios, sendo que somente um é original, o Ninomaru, que visitamos. A disposição dos palácios é um ao redor do outro com dois fossos de proteção, sendo que um destes fossos se localiza entre o Palácio Ninomaru e o Honmaru, o palácio mais interior. O outro fosso fica ao redor de Ninomaru.


O fosso externo

O portão de entrada do Palácio Nijo


O grau de detalhes do interior de Ninomaru são incríveis. Os tetos são todos de madeira, cada sala tem pinturas decorativas evocando animais e paisagens de estações. Curiosamente os japoneses adotaram o simbolismo chinês e coreano de que o tigre é um animal poderoso. Então esse era um tema recorrente na decoração. (Não temos fotos do interior porque estas eram proibidas.)


A entrada interna do Palácio Nijo

Com relação às pinturas de tigres, entram algumas curiosidades. Primeiro que nenhum artista japonês tinha visto um tigre, então os desenhos eram sempre baseados em descrições ou em desenhos de outros artistas. Isso rende um monte de figuras bizarras que causam estranheza porque os desenhos parecem ter algo de errado na anatomia.


Detalhes em metal

A segunda curiosidade é que se achava que um a cada quatro filhos de tigre era um leopardo, e portanto, tinham manchas redondas. Isso também causa um certo tipo de estranheza. Fora estes detalhes, o uso de cores douradas e a paisagem de fundo tornam a decoração muito bonita.


Os ornamentos eram muito bonitos

E também as telhas compunham um belo arranjo


Este castelo serviu de residência do shogun, e portanto, a construção dos aposentos foi feita para mostrar o poder dele em relação aos daymios (senhores feudais), tudo apontava para a importância do shogun, desde os motivos escolhidos para ornamentar cada lugar do palácio até a altura do teto e elevação do piso dentro de algumas salas. O shogun sempre ocupava as posições mais altas.


Detalhes no portão de entrada


Depois de fazer a visita e andar pelos jardins do palácio fomos para o segundo festival, chamado de Festival do Fogo de Kurama, que tem lugar no santuário Yuki e pelas ruas da cidadezinha de Kurama. O festival é considerado um rito de passagem para os jovens, vimos desde criança a adultos participando. Os partícipes carregam tochas que variavam de tamanho e peso. As tochas que os adultos carregavam eram enormes e segundo pesquisei chegavam a pesar 80 quilos. 


Uma tocha exibida em frente a uma casa na vila de Kurama


Já na estação de trem notamos que o festival seria lotado, havia fila para pegar o trem, aliás, a última perna do trem, porque pegamos três trens para chegar. Assim que desembarcamos na vila, que fica por volta de quinze quilômetros ao norte de Kyoto, já sentimos o cheiro de fumaça. Eu pensei que não estávamos tão perto, mas pouco depois de sair da estação já notamos fogueiras.


A estação de trem estava lotada

Logo no início já vimos que seria confuso


Saindo da estação havia policiais controlando o fluxo de pessoas. Notamos do outro lado, que para pegar o trem de volta, um curral com cordas armado para enfileirar os passageiros nos aguardava. Os policiais estavam por toda a vila, na estação de trem, logo na saída da estação, pela enorme rua, perto do caminho de retorno, em todos os lados.


A procissão ocorria em ondas

Aqui escutamos o que eles falavam


Como a vila é bem pequena, isso era essencial para controlar a multidão. Ao longo de uma rua principal, várias casas tinham fogueiras armadas em um equipamento próprio para isso, e vimos diversas tochas repousadas. Ocasionalmente uma era acesa e escutávamos gritos, os participantes acendiam a tocha e a repousavam no ombro.


Eles então caminhavam para cima e para baixo com a tocha, repetindo os gritos. Por toda a rua era isso que se fazia. Vale notar que eles se vestiam com roupas tradicionais, incluindo uma “fralda” que lembrava aquela usada pelos lutadores de sumô. Segundo lemos, o festival era basicamente conduzido por homens, mas com a diminuição da população e com os tempos atuais, meninas também participavam.


Algumas tochas ao longo do caminho


Não chegamos a ver a chegada ao templo porque isso aconteceria bem mais tarde. Os policiais sempre nos pediam para que andássemos e não parássemos, mantendo o lado esquerdo da rua. Eu fiquei muito impressionado como eles conseguiam lidar com o volume de pessoas que estavam no festival. Demos a volta na cidade, fomos obrigado a seguir bastante até o fim e depois voltar, tudo isso porque a quantidade de pessoas é muito maior do que o trem é capaz de escoar. Mesmo com essa confusão toda, tudo correu bem. Chegamos bem tarde no hotel e tínhamos um trem no dia seguinte, destino Hiroshima e Miyajima.


Perto do trem havia isso aqui


sábado, 25 de outubro de 2025

Dia 13: Feira no templo To-ji e Arashiyama

Há muitos mercados de pulgas no Japão. Estes mercados não vendem exclusivamente itens de segunda mão, há muita coisa nova, artesanato e comida. Alguns ocorrem em datas específicas do mês e hoje ocorreria um destes, na região do templo To-ji.


A principal característica deste templo é possuir uma pagoda enorme. Juntamos a vontade da Pri de visitar uma destas feiras e a minha curiosidade para visitar essa pagoda enorme e decidimos ir para o templo na parte da manhã. 

A enorme pagoda do templo To-ji

A feira era enorme, demos uma olhada e já fomos visitar o templo, novamente composto por dois edifícios e uma pagoda. A pagoda não estava aberta para entrada, mas pudemos chegar bem perto. Visitamos os outros dois prédios e retornamos para a feira. 


A primeira coisa que fizemos foi comer um espetinho de carne e um Yakisoba. A carne estava gostosa, mas não no nível wagyu que comemos antes. O macarrão estava gostoso, foi a primeira vez que comemos este estilo aqui. Ainda provamos broto de bambu na brasa.


A Pri estava procurando itens de cerâmica, rodamos boa parte da feira. Antes da cerâmica ela encontrou um tecido costurado em forma de faixa, que pode ser usado como cinto de kimono, echarpe ou como decoração de mesa.

De alguns pontos da feira víamos a pagoda

Rodamos a feira inteira, achamos ainda a espécie de pergaminho com tema japonês, feita pelo artista que estava na barraca vendendo os itens. Compramos.

Com o artista

Quando já estávamos por ir embora, num cantinho escondido, a Pri achou uma barraca vendendo um pote para preparo e consumo de matcha. Ela ficou muito feliz de ter encontrado justamente o que procurava.


Saímos da feira em direção à região de Arashyiama, mas antes compramos um caqui gigante. Estava muito doce, esse caqui é mais rígido, parecido com o que tem em Israel. 


Pegamos um trem para a estação central de Kyoto e de lá pegamos outro trem para a região de Arashyiama. Essa região abriga alguns templos e tem uma rota de trem que beira o rio. 


Começamos visitando uma ponte que ficava um pouco mais afastada do ponto em que chegamos. Dali fomos passear no templo e jardim Tenryu-ji. Essa região estava lotada, é impressionante a quantidade de turistas que vemos fazendo as mesmas coisas. Espero poder voltar ao Japão para uma viagem só para destinos mais longe, espero que isso diminua a quantidade de visitantes. 

Rio em Arashiyama

A gente ainda queria fazer a rota do trem cênico, então saímos pelo outro lado do jardim do templo com o intuito de voltar para o ponto inicial da estação deste trem, que ficava no lugar onde chegamos à cidade. Por sorte a famosa floresta de bambu de Arashyiama ficava muito perto e resolvemos dar uma olhada. No fim da floresta havia duas estações de trem, uma englobada pelo passe que tínhamos, pensamos em pegar este trem para o início da cidade para então pegar o trem cênico, mas havia uma estação deste trem cênico, e perguntamos se o trem parava ali, sim, parava!

Trilha cênica

Problema resolvido, pegamos o trem. Ainda havia lugares sentados! O percurso foi bem curto, durou vinte minutos, mas a vista realmente era muito bonita, margeando um rio, passando por pontes e túneis. 


No ponto final pegamos um trem normal para a cidade e fomos comer um hambúrguer que a Pri já havia avistado assim que chegamos. O hambúrguer vinha com espetáculo, não somente o queijo era servido abundantemente numa chapa fumegante, quanto havia também uma presepada que fizeram com fogo. O hambúrguer não era somente show, era também muito saboroso. 

Na volta de Arashiyama vimos plantações de arroz

Dali fomos visitar uma instalação artística chamada de floresta de kimono, basicamente uns postes com desenhos e uma lâmpada dentro. Embora simples, o efeito visual era muito bonito. 

A floresta de kimono ficava na estação de trem

Detalhe da instalação artística